14 de Nov de 2009

Passaram 3 meses [9]

Ao fim de 3 meses depois da Operação já me é possível fazer uma balanço do que foi acontecendo.
O Coração trabalha bem, todos os dias, e o mais incrível, é que trabalha mesmo quando eu estou a dormir. Claro que não é nada de novo. Quase toda a gente vive assim. Mas, como eu tinha uma insuficiência cardíaca, é importante salientar que o trabalho de reparação foi bem feito.


Os ossos é que demoram mais a ir ao sítio. Ainda sinto algumas limitações em certos movimentos, mas nada de especial. Já retomei a condução da viatura e em breve espero já voltar às caminhadas do Sempre a Descer.
Continuo (para sempre) a fazer os controlos do sangue e a ajustar a medicação. Entretanto voltei ao Cardiologista para ir controlando a hipertensão e outras eventuais mazelas na máquina.
Ou seja, vamos em frente, que não há tempo a perder !
Mas o que é novo, é talvez uma nova abordagem à vida e àquilo que ela tem de maravilhoso. E isso, e após uma longa passagem pelos hospitais e pela recuperação, é uma nova fonte de inspiração para os tempos que hão-de vir. Matéria para futuras reflexões.

29 de Set de 2009

A Recuperação [8]

E depois desta operação ao coração, foi cerca de um mês e meio para recuperar. Primeiro em Odivelas e depois em Santa Cruz, onde o mar, o Sol e o pouco calor, ajudaram muito nesta recuperação.
Muitos medicamentos para tomar, e o regresso aos poucos à actividade fisíca.
Uma das coisas a controlar, é a velocidade de coagulação do sangue. Para isso, preciso de fazer regularmente uma recolha de sangue, para medir o Tempo de Protrombina (TP). Existe um método de determinação internacional, designado por INR (Rácio Internacional Normalizado), que é o TP corrigido a padrões mundiais.

O valor do INR é a informação chave, para se poder escolher a dose mais correcta do medicamento anticoagulante oral, Varfine, que terei de tomar até ao fim da vida. Existe um intervalo no qual os valores de INR terão de se manter para que a terapêutica tenha sucesso.
O Varfine, nome comercial, tem como ingrediente activo a Varfarina sódica, um anticoagulante oral, que impede a acção da vitamina K, substância indispensável para a síntese hepática de vários factores de coagulação. Deste modo, diminui-se a actividade biológica da protrombina, com atraso da formação da trombina e diminuição da coagulação sanguínea.

No final da análise, recebo por e-mail o plano de toma do Varfine para o próximo período.

Encontrar Deus [7]


Passados 5 dias da operação, saí do Hospital e fui para casa recuperar.
À saída encontrei Deus !
Calma, não penssem que lá pelo facto de ter feito uma recauchutagem ao coração já passei a ver e a falar como a Alexandra Solnado...
Enquanto estive inconsciente, quando me iam mexendo no interior, não me lembro de ter tido qualquer contacto com o além.

Mas de facto, à saída, simplesmente num Audi estacionado em cima do passeio, mesmo junto ao Hospital, cá estava este Deus.

Fez-me lembrar os muitos jogadores de futebol, que à entrada no campo se benzem abundantemente, pedindo a protecção e ajuda divina para o jogo.

Mas como são todos a fazer os mesmos gestos, eu imagino o que será a confusão no Céu para saber que equipa apoiar.

21 de Set de 2009

Uma questão de Sorte [6]

Uma das vantagens de estar numa enfermaria é poder ver televisão. E se os meus companheiros não estiverem muito interessados até posso escolher o canal. Foi o caso. E assim o melhor é escolher a RTP1, em vez das desgraças da TVI e os escândalos da SIC. Pelo menos é o que me ocorre dizer sobre os lomgos programas da manhã e das tardes.

Por esses dias houve a tragédia da Praia Maria Luísa, em Albufeira. 5 portugueses, com falta de sorte, morreram devido à queda das arribas.
O mais impressionante, naquele dia e seguintes, foi ver as entrevistas a outros portugueses que assumiam o mesmo tipo de riscos, noutras praias, colocando-se à sombra de outras arribas, argumentando que não fazia mal, que não iria acontecer outra vez, e que já lá tinham estado tanta vez e nunca tinha acontecido nada. Que o problema dos que morreram foi a falta de sorte.
Uns dias mais tarde ouvi umas declarações do Pauleta a propósito da falta de sorte da selecção nacional por não marcar golos, que tanta falta fazem para a qualificação para o Mundial na África do Sul. Nunca se referiu à falta de pontaria dos dos nossos jogadores, que quase marcam, mas a bola não entra.

Será que então o nosso grande problema é a permanente falta de sorte?

16 de Set de 2009

Nos intermédios [5]

Antes de chegar a uma normal enfermaria, passei 1 dia nos Cuidados Intermédios. Aqui a aparelhagem de controle é menor, e estamos a meio caminho para a saída.
Continuam os apitos, mas chegou a comida, e finalmente a hipótese de beber pequenas quantidades de água. Que alívio, finalmente! Afinal passou tão pouco tempo, mas a falta de líquidos, pela boca, é desesperante.
Claro que estava a ser hidratado e alimentado de outras formas, com as minhas conhecidas garrafas de soro.
Aqui já comecei a mexer-me um pouco, para ver se estava tudo no sítio. As visitas dos familiares são também mais demoradas e finalmente comecei a perder alguma tubagem. De qualquer modo a higiene e limpeza ainda é feita deitado na cama. Ou seja, tratado como um lorde.
Só nessa altura pude ver que tinha uma costura (interior) com cerca de 18 cm, muito bem feitinha, na opinião de umas enfermeiras, entendidas no assunto.

15 de Set de 2009

O regresso [4]

Da minha passagem pela UCI recordo poucas coisas. É a vantagem de estar mais para lá do que para cá. Fiquei por lá 20 h.
Tinham-me avisado de que iria acordar entubado. Mas afinal havia ainda um outro tubo, que entrava pelo nariz, uma sonda naso-gástrica, que creio que serve para retirar algum entulho que se possa acumular no estomâgo, e que possa estar a estorvar. Além deste ainda tinha dois tubos a drenar para um garrafão e que iam vazando as impurezas que se acumulam durante a operação, além da algália.
Mas o mais difícil foi a sensação de sede. Só me vinham à minha pouca memória, na altura, os filmes Lawrence da Arábia e O Paciente Inglês e as suas imagens de pessoas no deserto a morrer de sede. E eu não podia beber água. Restou-me a fraca consolação de me molharem os lábios (gretados) com uma esponja molhada.
O resto, à minha volta, eram os monitores que vão dando indicação do estado geral, tensão arterial, pulsação e outros dados que ajudam a equipa de vigilância, a manter tudo dentro dos eixos. Sei que tinha alguns vizinhos, porque ouvia constantemente os alarmes, meus e dos outros, mas a sonolência foi mais forte, e não lhes pude desejar as melhoras.

3 de Set de 2009

A Operação [3]

Acordei bem e preparado para o grande dia da operação [14 de Agosto de 2009]. A família veio fazer as despedidas e avaliar o meu estado de espírito. Ao sair do quarto, com aquela touca que se via na foto, já eu estava mais para lá e disse algumas coisas de que não me lembro nada. Parece que falei num isqueiro e na hipótese de em caso de não voltar, que fizessem a minha cremação e de colocar as cinzas nos sítios em que já tinha comunicado na véspera aos meus filhos.
A operação durou cerca de 2 horas e meia.
O pessoal da recepção foi extremamente simpático com a minha família. Disseram-lhes para irem dar uma volta e voltarem mais tarde, e se ainda não houvesse notícias que perguntassem. E vendo passar o tempo, foi feito um telefonema para o bloco e de lá veio a notícia de que tudo estava a correr bem, mas ainda demorava. É aquilo que as famílias aflitas querem saber. Mas o melhor foi quando, acabada a operação vieram os médicos intervenientes, Dr. Rui Rodrigues e Dra. Marta Marques, explicar tudo o que tinha acontecido, e isso deixou tudo aliviado.
Dali a pouco já me puderam ver na UCI (Unidade de Cuidados Intensivos), mas aí a visão é quase dantesca. Tubos e mais tubos, fios, ecrãs, apitos e parece uma cena da E.R..
Mas afinal estava tudo bem.

A Preparação [2]

À tarde, depois de me ter sido atribuída uma cama, vesti a roupa de doente. Sim porque isto nos hospitais, tal como já referi nas histórias passadas no Hospital Pulido Valente, há fardas para tudo. E o doente é aquele que veste um pijama. A anestesista e mais tarde um médico vieram explicar-me o que se iria passar no dia da operação. Uma das curiosidades foi o de saber que iria acordar na Unidade de Cuidados Intensivos, e que não me preocupasse, porque teria um tubo enfiado pela goela abaixo, e que isso seria normal. Ou seja não tinha morrido e não estava na fase de ressuscitação.
Tive também outras explicações sobre a prótese aórtica a colocar (e também da hipótese de se fazer apenas uma reparação na existente).
Chegada a hora da janta, recebi alguns medicamentos para tomar, o Tantum Verde para desinfectar a boca e o Mycostatin para bochechar e engolir, e dois clistéres... Olá, então dão-me o jantar e querem que eu fique limpo logo a seguir? É assim o protocolo.
Também tive de tomar banho com um sabão neutro que parece que nos limpa de todas as impurezas. Tenho de perguntar se se beber um bocadinho deste sabão, também servirá para limpar a alma.
..................
Já passaram 3 semanas depois da operação, mas só agora tenho a disponibilidade física e mental para contar estas histórias.

23 de Ago de 2009

A história do Acto, vista pelo próprio [1]

Comecei pelos exames médicos. Obtida a papelada adequada fui para a recolha de sangue para análises. Retirei a senha e vi que tinha 17 números à minha frente. Ainda sem jornal para ler, fui ver como era o ambiente na sala de espera. E aqui entra em cena um Voluntário, que olha para a minha papelada, e vendo que eu sendo um pré-operatório, me diz o balcão onde me devia dirigir, porque era prioritário. O que foi bom, para quem não estava grávido nem suficientemente idoso para ter direito a tais mordomias.

A importância que têm nos hospitais este tipo de voluntariado, especialmente quando as pessoas estão mais fragilizadas.

Retirado o sangue era altura de ir comprar o jornal Público e finalmente tomar o pequeno almoço. Fui parar a um café, nas proximidades do mercado de Carnaxide onde fiz este pequeno intervalo para leitura e matabichar, antes de passar às próximas provas (RX e ECG).

Qual não foi o meu espanto, ao verificar que ao fim de alguns minutos as mesas da esplanada à minha volta estavam repletas de famílias espanholas, também a tomar o pequeno almoço. Não percebi. Carnaxide não está assim tão próximo da praia e não me consta que seja um normal destino turístico. A não ser que a fama do verbo "isaltinar" seja já tão grande que já se façam excursões atá cá, para ver como se faz.
Passei então aos outros exames.
Deram-me então folga para ir almoçar fora com a Margarida e voltar mais tarde. Fomos a um tasco, muito bom, que conheci recentemente: "
O Rastilho" em Barcarena.

Nas minhas novas responsabilidades na empresa tenho, por vezes, de andar por aí, na procura de terrenos para as infraestruturas necessárias à nossa actividade de distribuição de energia e nos contactos com outras entidadades, oficiais e privadas. O que é muito interessante.

Nos últimos anos, a minha actividade profissional tinha estado um pouco adormecida. Depois das azáfamas intensas e estimulantes que tive na área internacional da EDP, durante doze anos, passei então para outra estrutura onde as coisas, para mim, infelizmente, não funcionaram com o mesmo entusiasmo. Fui reclamando, fui fazendo o que me era pedido, mas não era a mesma coisa. E quando não se dá uso apropriado aos neurónios, eles vão adormecendo...

Ainda bem que as coisas estão a mudar. E é curioso que tudo isto aconteça no ano de 2009, em que o meu coração se estragou e agora depois de recauchutado poderá então ser-lhe dado um novo uso.

22 de Ago de 2009

Novo Boletim Clínico

A operação foi feita na manhã de 6ª feira, 14 de Agosto.
Depois da passagem pela Unidade de Cuidados Intensivos, Cuidados intermédios e pela enfermaria, regressei a casa na 4ª feira, 19 de Agosto, onde me encontro em franca recuperação.
Muito obrigado pelos incentivos, pelas orações e pelas preocupações manifestadas. Agora é ir andando devagarinho e em breve já devo estar operacional.

17 de Ago de 2009

A saga parte II


Resolveram desentubar o Tozé, o que na minha opinião, poderia ter demorado mais um bocadinho, porque até estava a saber bem não ouvir as boquinhas do costume. Para cúmulo, no dia a seguir, tiraram o resto dos tubos e agora ele anda por aí, tipo superherói com um coração novo, por isso aconselho precaução nas redondezas do hospital de Sta. Cruz.
No entanto, ainda não consegue correr, por isso estamos relativamente seguros, desde que mantida uma distância de segurança. Por este motivo, vou de férias para os Açores, e tendo em conta isto desejo-vos sorte, principalmente tendo em conta que agora vai ser o Boita a actualizar este bloggue.
"Isto está-se a compor!!!!"

Boitinha

15 de Ago de 2009


Pra melhor, assim está bem está bem. Pois é, a recauchutagem foi um sucesso, ao que parece a válvula estava bastante estragada e tiveram mesmo que substituir por uma mecânica.
Como sempre, o Tozé estava muito bem disposto como podem ver pela fotografia, exigiu até um fecho eclair daqueles todos xpto com duplo zip, jantes de ligas leve e luzes neon.
A única coisa que o aboreceu foi não poder ter o portátil na UCI, para poder continuar as memórias, por isso a boitinha carregou esse peso nos seus ombros e aqui estou estoicamente a deixar a minha mensagem.
A esta hora ele já estará a respirar sem ajuda e certamente vai me lixar a cabeça por não ter ilustrado este post com uma fotografia dantesca dele com tubos a entrarem por todo lado.
Amanhã a saga vai continuar, obrigado a todos pelo apoio, miminhos, por estarem sempre por perto.

Boitinha

14 de Ago de 2009

A Operação

A esta hora já devo ter um coração recauchutado.

Não se vão ver os efeitos para já.
Primeiro é preciso que todo o equipamento volte a trabalhar como deve ser. Depois os pontos que seguram o fecho éclair têm de fechar bem, para não entrar frio. Porque ter um coração frio não deve ser grande coisa.
Depois ainda vou ter de aprender a viver com o motor novo e fazer a rodagem.
Em breve teremos aqui mais notícias escritas pelos meus filhos.

13 de Ago de 2009

Testes Médicos

Deu entrada esta manhã, no Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide, um jovem com quase 54 anos, para fazer os habituais testes médicos, com vista ao reforço da equipa para a próxima época.
Para evitar a confusão habitual com a imprensa, entrou pela porta dos fundos,..., mas afinal por falta de coordenação do seu agente com os meios de comunicação social, não havia nenhuma equipa de reportagem da SIC (que até fica nas proximidades).
Os testes incluiram a colheita de sangue para verificar a sua qualidade, um Rx ao tórax e ECG (electrocardiograma), e para já chega.
À tarde e após um almoço no exterior (para prevenir as futuras refeições sem sal) dará entrada num quarto com vista para o rio e entrará em meditação para o grande encontro de amanhã, com o cirurgião, que irá fazer a substituição da válvula aórtica.


Nem toda gente tem a sorte de aos 54 anos poder fazer este tipo de recauchutagem e assim ficar com uma máquina renovada.

5 de Ago de 2009

Finalmente,,,, a operação

Finalmente vai começar a minha recauchutagem ao coração, estando a Operação marcada para 14 de Agosto.2009.

4 de Ago de 2009

Redondo, Ruas Floridas


Fomos ao Redondo ver as Ruas Floridas.
Muito bonito, boa companhia e boa gastronomia.

Atenção, o que está nas fotos é feito (tudo) em papel.
Temos de regressar, lá para Novembro para uma caminhada na Serra d'Ossa.

31 de Jul de 2009

Noites mágicas

Já tivemos outras noites mágicas como esta que agora vivemos no Pavilhão Atlântico, com o Leonard Cohen.
Actuou durante 3 horas, para um vasto público que enchia aquela sala espectacular. A frescura da sua juventude de 74 anos contagiou o pessoal presente.

Recordo noites semelhantes com Compay Segundo e com B.B. King, no Coliseu de Lisboa.

16 de Jul de 2009

Boletim Clínico

Castelo Novo

A Cirurgia Cardíaca do Hospital de Stª Cruz, em Carnaxide, está a fazer limpesas, enquanto o pessoal está de férias. Assim só devo ser operado lá para Setembro.

Entretanto o melhor é ir trabalhando e descansando quando se possa, para começar a nova época em grande, e depois lá irei à recauchutagem.

Castelo Novo

25 de Jun de 2009

Os telemóveis e a nossa vida

Os telemóveis alteram muito os hábitos das pessoas. Quando tocam, a meio de reuniões, congressos, na missa, etc. e como o número de quem telefona aparece no visor, as pessoas não têm coragem de desligar, e então fazem aquela cena caricata: "O pá, desculpa mas agora não te posso atender, estou numa reunião... ligo-te mais tarde". Que cena estúpida: não te posso atender, mas atendi. Gastaste uma chamada e não falamos de nada, e a operadora móvel agradece. Só se for para animar a economia.
Ora não seria mais prático, como se fazia com os velhos telefones fixos, que quando não se podia atender, eles tocavam e se ninguém podia atender ligavam mais tarde. Esta ideia fixa de que a vida é feita ao ritmo do telefone e do imediato, não nos leva a lado nenhum. Ainda por cima como fica registado o número no nosso telemóvel, podemos sempre reatar o contacto, então em momento oportuno.

Embirro quando me perguntam num telefonema para o telemóvel: "Desculpa, mas não sei se me podes atender... ou se agora é oportuno...!" Se não fosse oportuno porque é que eu atenderia o telefone? Não é assim que fazemos noutras coisas da nossa vida. Se não posso, não vou ou não faço.

À Espera

Um mês depois da saída do Hospital, estou à espera, sentado, da oportunidade de fazer uma recauchutagem ao coração, que na linguagem das lilicinhas se poderia chamar um lifting, que me deverá deixar seminovo, como se anuncia na venda de automóveis.

Entretanto, no regresso a casa, alguns dos hábitos hospitalares ficaram. Continuo a acordar por volta das 6 h/6:30 h da manhã. Era a hora a que começavam as actividades de limpeza no hospital. Passei a fazer uns lanches a meio da manhã e da tarde, e antes de deitar lá vai uma bolachinha com leite. Se no final isto me der um melhor equilíbrio, e uma vida melhor, sempre posso dizer, como é hábito entre nós, "afinal ainda tive muita sorte com esta doença"!

23 de Jun de 2009

Os tarifários e a nossa vida

Nos primeiros dias em casa recebi vários telefonemas de amigos, à noite, que queriam saber de mim. Achei estranho que as conversas se prolongassem por muitos minutos, com alguns mais de meia hora. Até parecia as conversas de mulheres... pormenor para aqui, mexeriquice para acolá, e a conversa nunca mais acabava. Uma das vezes até fiquei com o jantar a meio, que a bem dizer, não tive coragem de dizer àquele amigo que não era a hora mais oportuna.
Mas foi bom receber estes telefonemas porque assim fiquei a par do que tinha acontecido à minha volta.
Só então verifiquei que com os novos tarifários das operadores de telecomunicações, net e TV, e com a possibilidade de telefonemas sem tempo definido incluídas no pacote, não há oportunidade que o português não aproveite e assim vá de telefonar aos amigos.
Eu imagino o que será o entupimento no tráfego de voz em algumas casas.
É assim que estes tarifários das empresas privadas, mudam os hábitos dos portugueses. E andam alguns ainda a pensar que a culpa é do Governo...

9 de Jun de 2009

O Trabalho e o Contribuinte [35]

Ao longo do mês em que estive hospitalizado aproveitei o tempo livre de tratamentos para me manter a par do que se passava no meu departamento e com a ajuda da rede móvel no PC portátil fui fazendo o que podia do meu trabalho. É que estando doente do coração não estava inválido.
O meu trabalho na EDP hoje em dia, é quase todo feito a partir do computador no gabinete. Recebo os pedidos de trabalhos, faço os contactos por e-mail ou telefone e envio as respostas. Como não podia ir ao terreno, combinei reuniões para outros lá irem e quase tudo se vai mantendo activo. E faço isso com grande prazer. E assim é foi muito mais fácil aguentar o tempo de clausura no hospital.
Achei muito estranho que algum@s amig@s me tivesses questionado sobre esta atitude, como se fosse completamente incompatível o estar doente (e de baixa) e continuar a trabalhar. Como se o trabalho fosse tão penoso para a vida, que até pudesse colocar em causa a minha saúde.
É certo que estes reparos vieram de quem tem um contrato de trabalho com o Estado. Será que é também aqui que se vê que o trabalho não é visto da mesma maneira se o patrão for o Estado (e o Contribuinte) e não o Cliente que nos paga o serviço prestado?

4 de Jun de 2009

No regresso [34]

Quando se regressa depois de um longo período de ausência, encontram-se as coisas um pouco diferentes. O Provedor de Justiça ainda não foi substituído… e ainda há pouco tempo se falava das virtudes de um Bloco Central para resolver os problemas do país.
Muitos dos casos da justiça portuguesa, como o da Casa Pia ainda não teve nenhum desfecho. Bem preciso de uma válvula aórtica com uma longa validade para poder saber afinal o que se terá passado ali.
O FCP ficou também com a Taça, restando aos outros, e em especial aos do Benfica um humor retemperador:

Como é que se sabe, se um automóvel é antigo ?
Se houver um autocolante no vidro traseiro a dizer "Benfica Campeão".

Porque é que o Benfica vai passar a ser patrocinado pela BP ?
Porque a BP dá pontos.

Porque é que os benfiquistas vão começar a plantar batatas nas margens do relvado ?
Para terem algo no final da época.

O que é que o general Pinochet e o Benfica têm em comum ?
Ambos juntam as pessoas em estádios de futebol para as torturarem.

O que é que o Benfica tem em comum com os tomates ?
Também é vermelho, participa na festa, mas nunca chega a entrar...

O que é que o treinador do Benfica diz quando a equipa marca um golo ?
"Fantástico. Agora vamos tentar marca na outra baliza..."

Sabe quando é que o Benfica vai ser campeão ?
Quando o Estado acabar com as listas de espera.

Sabe porque é que o Quique Flores veio para o Benfica ?
Porque os médicos mandaram-no afastar-se do Futebol.

Qual a semelhança entre o Benfica e o Pai Natal ?
Os dois são vermelhos, aparecem uma só vez no ano e só os inocentes acreditam nele...

Qual será o nome da Nova Claque Organizada do SLB ?
Vai nascer da união das claques organizadas do Benfica e vai ter o nome «M.S.T.» (Movimento dos Sem Título)

Afinal o SLB ainda está nas TRÊS FRENTES ?
Claro, são elas:
1. FRENTE ao Colombo
2. FRENTE à Mediamarkt
3. FRENTE à Repsol

Porque razão o próximo patrocinador do Benfica será a Tampax ?
Porque o clube está a atravessar um mau período.

27 de Mai de 2009

O Cateterismo e o sorriso EDP [33]

Trabalhar na EDP tem normalmente implicações no relacionamento com as outras pessoas, tal como já referi num outro texto "O Roupão da EDP".
Também me aconteceu durante o Cateterismo. Na troca de impressões inicial com o médico, durante a preparação do corpo para a entrada do cateter, lá chegamos à EDP.
Eu que estava ali para ver o estado das minhas canalizações na chegada do sangue ao coração, e sendo um doente com tensão alta, tive logo a oportunidade de saber de um problema de tensão baixa.
A diferença é que a minha é a tensão arterial e a dele era a tensão eléctrica.
Acabou por ser um diálogo interessante, e com muitos sorrisos, porque é a falar dos nossos problemas comuns que mais fácil nos entendemos e assim já tenho um caderno de encargos para tentar resolver depois do regresso ao trabalho.
Ah, o Cateterismo...
Quando era pequeno a minha mãe (Gracinda) obrigava-me a esfregar bem as orelhas por dentro e por fora para não haver lá sujidade suficiente para se plantarem lá couves... era assim que ela dizia.
Quando soube que tinha problemas no coração também nas lavagens matinais esforcei-me ao longo dos anos para o lavar bem por fora, como se estivesse a esfregar a alma. Afinal resultou nalguma coisa, porque tinha a canalização toda limpa.
Difícil, difícil, não é fazer um Cateterismo. Aquilo que eles tinham escrito no texto que me foi entregue na véspera, aconteceu tal e qual, e na conversa com o médico, no meio dos problemas das tensões, também fui sendo avisado das pequenas sensações que iria sentir.
Difícil mesmo é arrancar os pensos quando por baixo temos pêlos. Isso é que é doer a sério.

26 de Mai de 2009

Boletim Clínico (actualização) [32]

Ao fim de 31 dias de cativeiro no Hospital Pulido Valente, os bichinhos estão mortos [acabou-se a Endocardite], a canalização estava desentupida [cateterismo] e agora vou para a recauchutagem.

Mas como a insuficiência aórtica sendo grave, mas não tanto para ter de passar à frente dos que estão na bicha. Assim deverei ser operado no início de Julho.09.
Assim, faço um intervalo para ir trabalhar a partir de 2ª feira, para que não se sinta a minha ausência nos resultados da EDP.

22 de Mai de 2009

Urgências [31]

Desta vez, e já a partir de casa, aqui vai uma pequena reflexão que as notícias de hoje me sugeriram.
Quando eu comecei a ter febre, há uns meses atrás, apareceu como grande preocupação a questão da eleição pelo Parlamento de um novo Provedor de Justiça, para substituir o, já farto de esperar, Nascimento Rodrigues.
Depois de umas semanas de discussão sobre quem tinha a culpa, e devido à urgência na resolução do assunto, lá se marcaram para hoje, talvez uns dois ou três meses depois a respectiva eleição, após a apresentação de 4 candidaturas, porque os partidos não se entenderam sobre as culpas, e portanto cada um apresentou o seu.
E hoje votaram, e claro cada um votou no seu candidato e portanto não ficou ninguém eleito. Mas como é urgente resolver o assunto, em vez de fazerem nova eleição entre os dois mais votados, meia hora depois, marcaram-se novas eleições para daqui a uma semana.

Imagino o que teria sido da minha vida, se no momento em que os médicos verificaram que era urgente resolverem a minha Endocardite, se pusessem com discussões sobre de quem seria a culpa e apresentassem vários hipóteses de solução, a esta hora já eu estaria numa quinta das tabuletas.
Como sugestão de melhoria para o próximo Parlamento, seria bom que cada deputado fizesse um estágio numa qualquer urgência hospitalar, só para se treinarem para tomar decisões urgentes.

Finalmente vão levá-lo para casa [b]

Este blog, tem sido muito interactivo, e aqui está este balanço da minha vida durante o último mês, feito por amigo:

Tenho um amigo, boa pessoa, que há uns meses começou com problemas de saúde. Tosse, pernas fracas, pouca força e a família farta de o aturar doente e a trabalhar cada vez menos, instituciolalizou-o ou pelo menos alojou-o num hospital – aquele que antigamente era dos tuberculosos – onde ele permanece já vai para um mês.
Entre a mulher e os filhos, passam por lá a vê-lo, embora houvesse quem tenha aproveitado para ir viajar e tudo.
Podem pensar que, assim, ao menos sempre ia descansar. Engano! O chefe não perdoou as faltas ao trabalho e mandou montar na própria enfermaria tudo o que é necessário para continuar a labutar, agora até sem fins-de-semana de descanso. Com isso ele até adquiriu algum estatuto. Tem a sua encherga no meio da camarata onde está sentado a trabalhar, apreciado por todos os outros colegas que como ele para lá estão, vítimas dos maus corações.

Mas finalmente o hospital, que já o considera catita e apto a viver sem pijama, conseguiu negociar com a família e ele vai voltar para casa.
Vamos ver como se vai readaptar à casa pois vai voltar a ter de lavar a loiça, cozinhar, participar na lida da casa, em vez de esperar calmamente que lhe tragam a almocinho, a pastilhinha, o sorozinho, o sorozinho, a pastilhinha e o jantarinho.
À cautela vai só de fim-de-semana, com a desculpa de voltar na segunda feira para fazer um exame, mas todos sabemos que se não se der bem em casa pede de novo asilo no hospício.

É de esperar que corra bem pois ele até se adapta a tudo. Lembro-me por exemplo que uma vez fomos de férias para uma terra na outra banda do mar e queríamos beber café, mas lá não havia. Com esse nome só tinham uns baldes de água escura (mas não muito escura) e todos sofríamos, menos ele que bebia daquele cafú satisfeito e dizia “em Roma sê romano”, o que nos fazia lembrar ainda mais dos bons expressos de Roma.

E o que vai ser agora de mim que, quando não tinha mais nada para fazer, passava pelo hospital para dar uns dedos de conversa? Lá terei que ir para a Alameda ou a Estrela jogar às cartas ou, como felizmente veio a bom tempo, posso ir passear para a margem do Tejo e até talvez compre uma cana de pesca.

Claro que, se confrontarmos a família com estes factos, vão dizer que é mentira, que não foi nada assim, vão virar o bico ao prego e dizer que é tudo ao contrário, mas nós estamos carecas – e eu cada vez mais – de saber como as pessoas são.
Bom regresso a casa, um abraço

José Beirão

21 de Mai de 2009

A propósito de doenças [30]

(dos jornais)

"O Franco, tal como o Hitler, soube-se agora, só tinham um testículo. Perderam o outro em batalhas anteriores à sua chegada ao poder"

Ou sejam, foram ditadores mas não tinham tomates.

O Pijama [29]

Aqui neste Hospital, tal como em qualquer outra empresa, existe uma hierarquia de fardas.

Os médicos de bata branca e sempre com aquele colar tradicional, o estetoscópio (1), e muitas canetas de diversas cores nos bolsos.
Não sei bem o que acontece se um médico for apanhado sem estetoscópio. Terá de ir a algum curso reciclagem?
De manhã aqui neste serviço os médico têm um corrupio de actividades. Falam com os doentes, se passaram bem a noite e pegando nos dossiês, analisam a evolução dos tratamentos, o registo das análises e das medidas de temperatura, pressão arterial e diurese, e fazem os reajustamentos da terapêutica.
E no final têm de dar as explicações aos doentes que querem saber do seu futuro, e este assunto às vezes não é nada fácil.

As futuras médicas (a Anatomia de Grey, que por aqui passa), já vestem da mesma forma que os médicos, mas são muito mais mulheres que homens. Depois de qualquer indicação do médico que as orienta, discutem em voz baixa nos corredores, para ver se apreenderam tudo bem.

Com esta fornada de médicas, num futuro muito próximo, vai ser um regalo para os homens irem parar ao hospital. É que vão ter uma população esmagadora de mulheres para lhes tratarem da saúde.

As enfermeiras, de bata branca, sempre solícitas, mudando de luvas a toda a hora, para aplicarem os curativos e pensos e procederem à administração dos medicamentos, e dos diversos produtos injectáveis. São elas que vigiando e avaliando em permanência os doentes, com a colaboração das auxiliares, transmitem de turno em turno, vão mantendo o comboio em andamento.
Aqui neste serviço as enfermeiras são muito novas, numa média inferior a 30 anos. Disseram-me que é uma situação generalizada noutros serviços e hospitais, e que se deve ao facto de nos últimos anos, devido às muitas alterações nas carreiras da função pública e na gestão dos hospitais, as mais antigas se terem pré-reformado ou mesmo reformado.
Esta juventude e eventual menor experiência profissional são compensadas pela maior disponibilidade e atenção aos doentes, fruto também da diferente formação que tiveram.

As auxiliares, de uniforme azul celeste, sempre disponíveis para as diversas ajudas pedidas pelas enfermeiras e médicos, e para ocorrerem aos doentes, que querem sair da cama para ir para o cadeirão, que querem subir ou baixar a cabeceira da cama, para dar banho ou fazer a barba aos que não o podem fazer sozinhas, e são também elas que nos distribuem a comida e nos fazem a cama e fazem a limpeza geral do serviço.
De resto aqui a alvorada matinal, por volta das 7 h, é feita pelas auxiliares com o barulho das tampas dos caixotes, quando andam a recolher o lixo de todas as salas.

Às vezes, principalmente à noite, andam todos e todas vestidas de verde, e às vezes não se sabe quem é quem (à parte o estetoscópio).

E finalmente os doentes, de pijama, camisa de dormir e robe, de diversas cores.
É isto que nos distingue dos outros habitantes desta pequena comunidade. De tal forma isto é importante que um dia destes, um dos meus companheiros de sala foi informado pelo médico, logo pela manhã que iria ter alta a seguir ao almoço. E ele não foi de modas, pegou logo na roupa civil e foi à casa de banho mudar-se, e apareceu na sala fardado de não-doente.
Nem queiram saber a confusão que isso causou. Levou uma série de raspanetes de todos, porque os doentes só deixam de ser oficialmente doentes, quando os papéis estão todos assinados e as terapêuticas preparadas, ou seja tudo nos conformes.

Como se vê por esta descrição de cores, o Benfica nem aqui tem qualquer hipótese.
______
(1) - O dr. Rui Cordeiro esclareceu-me mais tarde que o estetoscópio é fundamental para a actividade dos cardiologistas, e que é muito difícil colocá-lo no bolso, onde já andam muitas outras coisas.

20 de Mai de 2009

Mais incentivos [28]

Outras mensagens recebidas por e-mail ou SMS:

[Viena, Áustria]
"Manda a bactéria pro caraças e põe-te porreiro pá".

[Lobito, Angola]
"Então pá, andas a imitar-me ?"

[Arroios, Lisboa]
"Tenho uma surpresa para ti mas não te posso dizer! até já."

[Beja]
"Com válvulas novas, ficas como um homem novo"

[Alvalade, Lisboa]
"Espero que pelo menos o programa de massagens seja ao teu gosto. Vai contando os detalhes … os que se puderes contar!!!"

[Paris, Lisboa]
"De facto parece-me muito perigoso tirar dentes ao coração e é natural que dê infecção. É quase tão bom como pôr um pace maker na boca para se mastigar com mais ritmo."
“O senhor teve foi azar na época em que foi internado. Se tivesse sido pelo Natal talvez até tivesse palhaços ao vivo e não só na televisão como descreveu”.
"E penteie-se. Um coração penteado tem um sopro muito mais bonito."
"Espero que vá pramelhor, até um dia destes e cumprimentos à sua senhora que lhe dá o xarope."

[Cabinda, Angola]
"Na verdade espero que te livres disso o mais depressa possivel. Por aqui a internet está um caos mas não sei porquê agora consegui captar para fazer este mail e não vou abusar da sorte."

[Infantado, Loures]
"Um grande beijinho, continuação de boa disposição, as melhoras e cuidado com as enfermeiras, algumas são atrevidas..."

[Marquês de Pombal, Lisboa]
"Pelo que li a agenda aí no hotel está bastante preenchida. Também reparei que das 4 garrafas três já foram despachadas (as mais apelativas)."

[Odivelas]
"Ter essa actividade toda e poder andar de pijama não é para todos."

[Montemor, Loures]
"Exige também um pedido de desculpas à Santa Casa, por não fazerem o Euromilhões mais fácil!"

[Jerusalém, Palestina/Israel]
"E tu, quase pronto para ir fazer a troca da válvula? Isso deve ser como trocar um tubo de escape não? Ou talvez mais como as válvulas da bateria?"

Boletim Clínico [27]

Depois de uma nova ETE (Ecografia Trans-Esofágica), efectuada na 3ª f, 19.Maio, verificou-se a morte da bicharada. Assim na 6ª feira, 22.Maio.09 devo ter alta.
Vou até casa, passar o fim de semana, para retemperar forças e preparar a próxima época. Vou ver se apanho um bocadinho de Sol, porque depois destes dias de cativeiro, tenho a pele da cor do roupão da EDP.

Volto cá ao Hospital na 2ª feira para fazer um cateterismo (1).
E na próxima 4ª feira vou a uma consulta de cirurgia cardíaca no Hospital de Stª Cruz, para preparar a Operação do Coração.

Alexander Fleming (1881-1955)
Descobridor da Penicilina em 1929

Neste caso, o boletim clínico não acaba com os tradicionais: "mãe e filho encontram-se bem!" ou "prognóstico reservado".
Mas pode ter uma palavra de ordem: abaixo a bicharada e vivam os antibióticos !

(1) Cateterismo é um exame cardiológico invasivo feito para diagnosticar ou corrigir problemas cardiovasculares, como por exemplo, a visualização de um estreitamento, geralmente formado por uma placa de gordura, na artéria coronária.
O médico faz um corte na virilha e selecciona um vaso sanguíneo (veia ou artéria). Por esse corte é introduzido o catéter (sonda de 2,7 milímetros de diâmetro e um metro de comprimento), que percorre o vaso até chegar ao coração.
Pelo catéter é injectado um líquido de contraste radiológico, à base de iodo, que permite visualizar, por meio de um aparelho de raio-X, os vasos e cavidades do coração.
As imagens internas do coração e os vasos são registadas com tecnologia que auxiliam na análise posterior do exame.

Incentivos e oportunidades de melhoria [26]

Algumas das sugestões e incentivos recebidos por e-mail, com indicação do local da sua proveniência:

[S. Miguel, Açores]
"Aproveita aí o hotel à borla, olha que férias dessas em tempo de crise, não são muito frequentes."

[Mindelo, Cabo Verde]
"Gostas de arranjares avarias com nomes técnicos complexos. Isso se calhar pode reparar-se com uma caixa de junção unipolar termo-rectráctil(a) e um bocado de tempo".

(a) jargão técnico só para entendidos em avarias em cabos eléctricos subterrâneos

[Rabat, Marrocos]
"Je prierai pour vous, que dieu fasse que vous alliez mieux et que votre coeur devienne plus fort et que votre vie future soit remplie de bonheur et de santé"

[S. Pedro do Estoril]
"Só mesmo tu estarias activamente do hospital a enviar acalmias aos amigos, explicações, guias de viagem nesta estação em que agora paraste. Sempre a subir, neste caso, graças a Deus! Que as maravilhas da vida em saúde te voltem a chegar em breve, e rezando por ti, cheios de optimismo, claro!"

[Paço do Lumiar, Lisboa]
"Se te tivesses mantido fiel às frescoladas (b) e não abusasses do café, estavas agora com ácido úrico mas bem do coração"
(b) ou seja umas cervejolas e um tinto para rebater num boa almoçarada


[Famalicão]
(A propósito do texto sobre a Anatomia de Grey)"Pediram-me, muito delicadamente para eu me despir da cintura para cima, e tendo o cuidado de aquecer o estetoscópio, aqui andaram a apalpar, à procura do som do sopro do meu coração." ... querias que fosse outra coisa ? com tanta beleza à tua frente e com a fome que andas e a falta de sal que dizes ter ... até o coração se normalizou ou até se pôs bem demais. Quem me dera ser doente nessas alturas de tantas visitas!?

[Luz, Lisboa]
Pois, isto é como as máquinas: passa o prazo de garantia e avariam. Agora já pode actualizar o blog do SaD. Tem que justificar o que come no tasco aí do hotel.

[Luanda, Angola]
Acredito que aí não haja torresmos, bifanas e ovos mexidos com farinheira...por certo haverá boas e simpáticas enfermeiras. Acho que o SLB deverá ser o grande culpado desse entupimento.

[Pragal, Almada]
Então, amigo, foste prevenir a gripe suína para o Hospital? Se a pandemia se verificar, és logo dos primeiros a ser socorrido, não é verdade?

19 de Mai de 2009

A maré do meu amor ergueu-se tão alto [25]

Alguns amigos têm colocado comentários no blog com incentivos e propostas de melhoria. Outros enviam-me por e-mail.
Vou aqui partilhar algumas dessas contribuições:
De um amigo que esteve recentemente no Irão:

Escreve mil segredos luminosos nos muros da existência
para que até um cego se possa aperceber da nossa presença
e juntar-se ao que nos alegra.
.......
A maré do meu amor ergueu-se tão alto
que me perdi em ti.
Fecha os teus olhos por um instante
e talvez todos os teu medos e fantasias se calem de vez.
Se isso acontecer Deus será uma criança nos teus braços
e terás que amamentar toda a Criação

Hafiz
Poeta que viveu em Shiraz, Irão (1320-1389)

Marrocos, 2003 [TGP]

Lixo tóxico [24]

Como devíamos saber quando se passa os 50 as peças começam a falhar, e às vezes começam pelo motor.

Nestes tempos de crise financeira, começo a convencer-me de que afinal o meu coração deve ter tido uma falha de regulação e deixou entrar o lixo tóxico e agora estou a pagar as favas.

Abaixo a bicharada e vivam os antibióticos !

Cabo Espichel, 2008 [AJP]

18 de Mai de 2009

Cá vamos andando [23]

Vou estando melhorzinho
e a bicharada vai desaparecendo
na próxima semana deve começar a ser preparada a operação para mudar a válvula aórtica
(já pedi que me arranjem uma que tenha um prazo de validade até aos 97 anos, é que não faço a coisa por menos, porque ainda gostava de saber o desfecho do Processo da Casa Pia e ver o Benfica ganhar um campeonato)
 
e depois é voltar à vida normal, com um coração mais bonzinho.

17 de Mai de 2009

Será que devo pressionar os médicos? [22]

Ao fim deste tempo no hospital, estou mais sensível às modas que a política portuguesa nos mostra nos meios de comunicação social. É que lá por fora o barulho do dia a dia vai esbatendo tudo isto.

Quando aqui cheguei foram os empurrões do 1º de Maio. E foi um corrupio de aproveitamentos.
Empurrem-no muito que nós precisamos de ganhar as eleições. Exigimos que nos peçam desculpa. Não pedimos desculpa, porque eles é que nos devem pedir desculpa.
E no final talvez tenha sido a RTP Memória que ganhou com a exibição das cenas antigas de Mário Soares na Marinha Grande.

Depois foram as guerras no Bairro da Bela Vista. É um caso social ou um caso de polícia?
E aqui os partidos e certas personalidades vão dando palpites.
São os pobres que roubam carros, arranjam armas automáticas e vão assaltar ourivesarias, multibancos e estações de gasolina ?
Ou são gangues de jovens delinquentes que vivem apenas desta forma de vida, e que não têm relação com a gente honesta e talvez pobre que vive na vizinhança ?

Também tivemos a decisão do Manuel Alegre.
Segurem-me senão vou fazer um novo partido.
Afinal seguraram-no e não vai fazer nada de novo e vai ficar à espera que o escolham para candidato à Presidência da República.
Tenho dificuldade em perceber todas estas indecisões de quem passou todo o tempo de deputado no mesmo partido, de vez enquando a fazer as suas diabruras, mas sem nunca sair. Tenho a impressão que quando existem convicções fortes, e se elas não são aceites pelo partido, o melhor seria partir para outra.
Mas é difícil deixar o poder e o permanente protagonismo.
É por isso que há sempre muitos candidatos a presidentes dos clubes de futebol.

Mas também temos as pressões sobre o Freeport.
Anda-se para aí a gastar tempo precioso de investigação a ver se num almoço, alguém mandou uma boca do estilo: despachem-se lá com esta coisa, senão ainda vão acabar de investigar isto depois do caso Casa Pia.
Coitadinhos dos procuradores que não podem ser empurrados para investigar. O melhor é não irem à manifestação do 1º de Maio…
Há coisas, que vistas aqui do hospital não se percebem bem. Afinal o que interessa não é saber se houve ou não dinheiro por baixo da mesa para aprovar aquilo ?
A não ser que os eventuais implicados tenham fábricas de fazer notas, o melhor era espiolhar as contas e ver se houve ou não movimentos suspeitos e que se possam investigar.

Pronto, mas isto é um doente do coração a querer simplificar…

Mas agora estou a pensar se devo pressionar aqui os médicos para se despacharem em relação à minha doença.
Mas e se eles embirrarem e resolverem pedir um inquérito.

Ainda me arrisco a ficar aqui à espera, até que o Benfica ganhe um campeonato.

Os nomes das doenças [21]

A partir de certa idade, é costume dizer-se que, quando não se sabe a origem de qualquer doença, que deve ser da PDI (para aqueles que não conhecem, significa a Puta Da Idade).

Mas hoje amigos transmitiram-me que também existem outras designações também muito apropriadas.
DNA ou PVC. Explicando melhor:
DNA = Data de Nascimento Antiga
PVC = Porra da Velhice Chegando

16 de Mai de 2009

Muito Obrigado a Tod@s [20]

Ao fim destes 24 dias de cativeiro, acompanhado pela Endocardite, que agora deve estar quase a desaparecer, estou muito agradecido às muitas visitas que por aqui passaram (cerca de 70), aos outros amigos que têm telefonado e muitos e-mails, além dos 22 comentários que foram colocados neste blog. Assim tem sido mais fácil viver aqui.

Aproveito para partilhar aqui, um dos comentários recebidos de uma amiga, que enviou um poema, "para despertar o arco-íris que pode estar escondido, por detrás do horizonte dos que resistem mais a adaptar-se ao ambiente hospitalar, pois não deve ser nada fácil..."
Receita para fazer o azul

Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz – eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé – e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.

Nuno Júdice
Meditação sobre ruínas, Quetzal-1994

15 de Mai de 2009

O Hospital Pulido Valente e a Crise [19]

Junto aos hospitais costuma estar um sinal de trânsito alertando para a proibição de buzinar nas suas proximidades. E isso é importante para o sossego dos doentes, já lhes bastando o barulho do movimento do tráfego rodoviário e aéreo durante todo o dia.No entanto, talvez para dinamizar a economia nestes tempos de crise, com mais investimento público, o Hospital Pulido Valente está a fazer obras no andar por debaixo daquele em que estou instalado, e é um barulho ensurdecedor durante todo o dia, com o partir de paredes e demais obras da grande remodelação que está a ser feita.

Claro que só pode ser para benefício dos doentes e do funcionamento do Hospital.
Assim o sinal que deveria estar à entrada do edifício onde estou a morar actualmente deveria ser este.

13 de Mai de 2009

Nem toda a gente se dá bem por aqui [18]

A maioria dos meus vizinhos dá-se bem por aqui. Vamos conversando, trocando experiências e esperando ansiosamente pela alta hospitalar.
Para aqueles que vão estando mais desanimados, lá lhes vamos dando algum alento, contando histórias, algumas anedotas e partilhando as nossas vidas. E são os médicos, as enfermeiras e auxiliares que vão tentando explicar calmamente o que se está a passar, para que servem os tratamentos, e explicando a situação de cada doente, para que em cada momento se saiba o que está previsto acontecer.
Mas nem sempre é fácil. Há exames para fazer, há resultados que não batem certo. E o corpo humano não é bem um relógio em que cada uma das peças sabe exactamente o que tem de fazer. Às vezes, existem muitas interferências, e em especial nos mais idosos, os sintomas cruzam-se, e entram para aqui com um problema no coração mas já trazem atrás de si um manancial de doenças de difícil resolução.
Enfim quando se está nesta clausura durante muito tempo, sonha-se com a data da alta, para que tudo possa voltar à normalidade.

Disseram-me também que há doentes que quando o médico lhes diz que têm alta, dali a pouco começam logo a queixar-se de dores no peito, para ver se continuam internados no hospital. É que há por aí muito abandono familiar, maus tratos e muita solidão, que uma estada num hospital ajuda a esquecer.

Há quem não goste da comida, porque isto de ser sem sal, custa a habituar. Há quem não goste de sopa (com ou sem sal). Há quem não esteja habituado a este tipo de vida de clausura.
Há também quem goste de tudo, usando do optimismo, porque se tem de ser assim, não será daí que o gato vai às filhoses.

Há também aqueles doentes que protestam por tudo e por nada. Não percebem que viver aqui, numa pequena comunidade, em que as necessidades e urgências de tratamento, não se compadecem às vezes com as suas exigências individuais.

É com isto que todos vamos vivendo no dia-a-dia. E para mim, já passaram 21 dias. Já sou um veterano.