15/06/2013

Das obras para uma horta

Obras em casa, mudança provisória de residência e um pequeno espaço por cultivar.
Daí uma espécie de horta.
Aqui está o antes:
 
 

 Após a plantação a 23.Maio,2013:



 
E em breve o crescimento.

31/07/2010

Caetano Veloso

[foto de Ricardo Jorge Fidalgo,
emprestada do Flickr]
No Coliseu, no concerto do Caetano Veloso, à minha frente, uma família, digamos que tradicional.
Pai e Mãe na casa dos 60 anos. O filho e a respetivas mulher, um casal aí pelos 30 anos.
Abanaram o capacete, cantaram, mas nem se tocaram.
Ele esteve a escrever um longo sms, mas que nunca vi ser enviado.
Ela com um Iphone a entrar e a sair do Facebook e noutras webs quaisquer, a respoder a muitas solicitações.

Já lá vai o tempo em que os jovens casais aproveitavam para namorar nos concertos à média luz.

18/04/2010

E se o Mundo fosse diferente....

Participei recentemente num grupo de trabalho, com vista à preparação de um discussão sobre: E se o Mundo fosse diferente...., para o movimento Metanoia, em Lisboa.
Em baixo está disponível um vídeo que elaborei com fotografias minhas a partir da discussão que o grupo de preparação fez sobre este tema.



A Islândia, os aviões e as férias

Um vulcão na Islândia causa mais perdas económicas que o 11 de Setembro.
Os aviões não descolam.
Os nosso PR e os políticos e empresários que o acompanham, habituados a andarem de executiva nos aviões, com muitas mordomias e a sensação de estatuto especial de corrida, vêm-se gregos para chegar a Portugal de carro e autocarro, como os demais mortais, e sem classe executiva (e sem milhas para acumular).
Porque é que não ficaram uma semana de férias na Republica Checa? Faziam assim tanta falta cá? Não sabem usar um computador com rede?
De vez enquando é preciso uma pequena/grande contrariedade para se ver como muita da nossa tecnologia é impotente para a força da Natureza. E desde o último Outono, muitos têm sido os exemplos disso.

17/04/2010

Exposição de borla





Quando aparece algo de borla é de aproveitar e se for bom, melhor.
Em Sintra, no Museu de Arte Moderna, a exposição do World Press Cartoon 2010.
Depois, uma ida aos travesseiros na Periquita e temos uma tarde em grande!

24/02/2010

A tragédia na Madeira

Se a tragédia do passado sábado na Madeira tivesse acontecido no Algarve, será que Cavaco Silva demorava 4 dias até lá ir apoiar a população ?

31/12/2009

A falta de Luz

Como dizia o sr. Maximiano (*),
“isto da falta de luz dá um bocadinho de tristeza. Deixa a gente aborrecida, sem nada que fazer. Até a alegria se abalou”.
É por tudo isto, que trabalhar na EDP é um constante desafio, qualquer que seja a intempérie que nos apareça.
(*) Expresso, 31.Dez.09, pág 14

24/12/2009

Natal de 2009

A partir de um texto de Anselmo Borges e uma fotografia tirada em Guerreiros do Rio.

01/12/2009

Mensagens sempre actuais

Há mensagens que pela sua actualiade originalidade e qualidade merecem que eu partilhe com quem até aqui ler estes textos.
Veio de um colega, grande amante das coisas boas da vida.


Giotto

Há muitos anos, muito antes do aparecimento da televisão, do computador e do telemóvel, deu-se um acontecimento, de tal forma mediático, que ainda hoje, rivaliza com as super-notícias que pululam pelos jornais das televisões, em horário nobre.

Na altura, nem os jornais da terra (a existirem) fizeram eco do nascimento. Embora, nascer, na altura, é que fosse notícia. E não morrer, como acontece hoje. Hoje, como sabem, morre-se a toda a hora na televisão. Seja na estrada, num filme de suspense com o serial killer de serviço, numa disputa de vizinhos em Freixo-de-Espada-à-Cinta ou num atentado bombista em Jerusalém e no Iraque. Morre-se a toda a hora, numa sangria desatada, dando ao mundo parecenças com um vulgar matadouro.

Os pais da criança, mudos de espanto, assistiram à chegada de anjos e arcanjos, pastores e reis magos e outras desvairadas gentes, que acorreram a uma gruta ali para os lados de Belém, para adorar aquele que também ficou conhecido por Menino Jesus.

Ficou-se a saber que o nascimento tinha origem divina. Bem, origem divina têm todos, mas aquele tinha uma dupla: não só era filho de Deus (como o comum dos mortais), mas, também Deus ele próprio, visto integrar a trindade Pai, Filho e Espírito Santo, o primeiro três em um da História.

É por causa desse acontecimento, que, segundo reza a História, conta já com 2009 anos, que estou a escrever-lhes. É por causa deste ser, a quem também chamaram Menino Jesus, que depois cresceu e se fez homem, e deixou à sua passagem um rasto indelével, que me dirijo a todos vocês.

Escrevo, invocando o Menino, com todo o respeito que ele merece, tentando não fazer dele um mero pretexto. O facto de ele ter nascido há tanto tempo e de o seu nascimento (e não apenas a sua morte trágica) continuar a mobilizar as pessoas é motivo suficiente para que me sinta tentado a falar dele e dele fazer o meu mensageiro do melhor que posso desejar aos amigos.

Um bom Natal para todos !

14/11/2009

Passaram 3 meses [9]

Ao fim de 3 meses depois da Operação já me é possível fazer uma balanço do que foi acontecendo.
O Coração trabalha bem, todos os dias, e o mais incrível, é que trabalha mesmo quando eu estou a dormir. Claro que não é nada de novo. Quase toda a gente vive assim. Mas, como eu tinha uma insuficiência cardíaca, é importante salientar que o trabalho de reparação foi bem feito.


Os ossos é que demoram mais a ir ao sítio. Ainda sinto algumas limitações em certos movimentos, mas nada de especial. Já retomei a condução da viatura e em breve espero já voltar às caminhadas do Sempre a Descer.
Continuo (para sempre) a fazer os controlos do sangue e a ajustar a medicação. Entretanto voltei ao Cardiologista para ir controlando a hipertensão e outras eventuais mazelas na máquina.
Ou seja, vamos em frente, que não há tempo a perder !
Mas o que é novo, é talvez uma nova abordagem à vida e àquilo que ela tem de maravilhoso. E isso, e após uma longa passagem pelos hospitais e pela recuperação, é uma nova fonte de inspiração para os tempos que hão-de vir. Matéria para futuras reflexões.

29/09/2009

A Recuperação [8]

E depois desta operação ao coração, foi cerca de um mês e meio para recuperar. Primeiro em Odivelas e depois em Santa Cruz, onde o mar, o Sol e o pouco calor, ajudaram muito nesta recuperação.
Muitos medicamentos para tomar, e o regresso aos poucos à actividade fisíca.
Uma das coisas a controlar, é a velocidade de coagulação do sangue. Para isso, preciso de fazer regularmente uma recolha de sangue, para medir o Tempo de Protrombina (TP). Existe um método de determinação internacional, designado por INR (Rácio Internacional Normalizado), que é o TP corrigido a padrões mundiais.

O valor do INR é a informação chave, para se poder escolher a dose mais correcta do medicamento anticoagulante oral, Varfine, que terei de tomar até ao fim da vida. Existe um intervalo no qual os valores de INR terão de se manter para que a terapêutica tenha sucesso.
O Varfine, nome comercial, tem como ingrediente activo a Varfarina sódica, um anticoagulante oral, que impede a acção da vitamina K, substância indispensável para a síntese hepática de vários factores de coagulação. Deste modo, diminui-se a actividade biológica da protrombina, com atraso da formação da trombina e diminuição da coagulação sanguínea.

No final da análise, recebo por e-mail o plano de toma do Varfine para o próximo período.

Encontrar Deus [7]


Passados 5 dias da operação, saí do Hospital e fui para casa recuperar.
À saída encontrei Deus !
Calma, não penssem que lá pelo facto de ter feito uma recauchutagem ao coração já passei a ver e a falar como a Alexandra Solnado...
Enquanto estive inconsciente, quando me iam mexendo no interior, não me lembro de ter tido qualquer contacto com o além.

Mas de facto, à saída, simplesmente num Audi estacionado em cima do passeio, mesmo junto ao Hospital, cá estava este Deus.

Fez-me lembrar os muitos jogadores de futebol, que à entrada no campo se benzem abundantemente, pedindo a protecção e ajuda divina para o jogo.

Mas como são todos a fazer os mesmos gestos, eu imagino o que será a confusão no Céu para saber que equipa apoiar.

21/09/2009

Uma questão de Sorte [6]

Uma das vantagens de estar numa enfermaria é poder ver televisão. E se os meus companheiros não estiverem muito interessados até posso escolher o canal. Foi o caso. E assim o melhor é escolher a RTP1, em vez das desgraças da TVI e os escândalos da SIC. Pelo menos é o que me ocorre dizer sobre os lomgos programas da manhã e das tardes.

Por esses dias houve a tragédia da Praia Maria Luísa, em Albufeira. 5 portugueses, com falta de sorte, morreram devido à queda das arribas.
O mais impressionante, naquele dia e seguintes, foi ver as entrevistas a outros portugueses que assumiam o mesmo tipo de riscos, noutras praias, colocando-se à sombra de outras arribas, argumentando que não fazia mal, que não iria acontecer outra vez, e que já lá tinham estado tanta vez e nunca tinha acontecido nada. Que o problema dos que morreram foi a falta de sorte.
Uns dias mais tarde ouvi umas declarações do Pauleta a propósito da falta de sorte da selecção nacional por não marcar golos, que tanta falta fazem para a qualificação para o Mundial na África do Sul. Nunca se referiu à falta de pontaria dos dos nossos jogadores, que quase marcam, mas a bola não entra.

Será que então o nosso grande problema é a permanente falta de sorte?

16/09/2009

Nos intermédios [5]

Antes de chegar a uma normal enfermaria, passei 1 dia nos Cuidados Intermédios. Aqui a aparelhagem de controle é menor, e estamos a meio caminho para a saída.
Continuam os apitos, mas chegou a comida, e finalmente a hipótese de beber pequenas quantidades de água. Que alívio, finalmente! Afinal passou tão pouco tempo, mas a falta de líquidos, pela boca, é desesperante.
Claro que estava a ser hidratado e alimentado de outras formas, com as minhas conhecidas garrafas de soro.
Aqui já comecei a mexer-me um pouco, para ver se estava tudo no sítio. As visitas dos familiares são também mais demoradas e finalmente comecei a perder alguma tubagem. De qualquer modo a higiene e limpeza ainda é feita deitado na cama. Ou seja, tratado como um lorde.
Só nessa altura pude ver que tinha uma costura (interior) com cerca de 18 cm, muito bem feitinha, na opinião de umas enfermeiras, entendidas no assunto.

15/09/2009

O regresso [4]

Da minha passagem pela UCI recordo poucas coisas. É a vantagem de estar mais para lá do que para cá. Fiquei por lá 20 h.
Tinham-me avisado de que iria acordar entubado. Mas afinal havia ainda um outro tubo, que entrava pelo nariz, uma sonda naso-gástrica, que creio que serve para retirar algum entulho que se possa acumular no estomâgo, e que possa estar a estorvar. Além deste ainda tinha dois tubos a drenar para um garrafão e que iam vazando as impurezas que se acumulam durante a operação, além da algália.
Mas o mais difícil foi a sensação de sede. Só me vinham à minha pouca memória, na altura, os filmes Lawrence da Arábia e O Paciente Inglês e as suas imagens de pessoas no deserto a morrer de sede. E eu não podia beber água. Restou-me a fraca consolação de me molharem os lábios (gretados) com uma esponja molhada.
O resto, à minha volta, eram os monitores que vão dando indicação do estado geral, tensão arterial, pulsação e outros dados que ajudam a equipa de vigilância, a manter tudo dentro dos eixos. Sei que tinha alguns vizinhos, porque ouvia constantemente os alarmes, meus e dos outros, mas a sonolência foi mais forte, e não lhes pude desejar as melhoras.

03/09/2009

A Operação [3]

Acordei bem e preparado para o grande dia da operação [14 de Agosto de 2009]. A família veio fazer as despedidas e avaliar o meu estado de espírito. Ao sair do quarto, com aquela touca que se via na foto, já eu estava mais para lá e disse algumas coisas de que não me lembro nada. Parece que falei num isqueiro e na hipótese de em caso de não voltar, que fizessem a minha cremação e de colocar as cinzas nos sítios em que já tinha comunicado na véspera aos meus filhos.
A operação durou cerca de 2 horas e meia.
O pessoal da recepção foi extremamente simpático com a minha família. Disseram-lhes para irem dar uma volta e voltarem mais tarde, e se ainda não houvesse notícias que perguntassem. E vendo passar o tempo, foi feito um telefonema para o bloco e de lá veio a notícia de que tudo estava a correr bem, mas ainda demorava. É aquilo que as famílias aflitas querem saber. Mas o melhor foi quando, acabada a operação vieram os médicos intervenientes, Dr. Rui Rodrigues e Dra. Marta Marques, explicar tudo o que tinha acontecido, e isso deixou tudo aliviado.
Dali a pouco já me puderam ver na UCI (Unidade de Cuidados Intensivos), mas aí a visão é quase dantesca. Tubos e mais tubos, fios, ecrãs, apitos e parece uma cena da E.R..
Mas afinal estava tudo bem.

A Preparação [2]

À tarde, depois de me ter sido atribuída uma cama, vesti a roupa de doente. Sim porque isto nos hospitais, tal como já referi nas histórias passadas no Hospital Pulido Valente, há fardas para tudo. E o doente é aquele que veste um pijama. A anestesista e mais tarde um médico vieram explicar-me o que se iria passar no dia da operação. Uma das curiosidades foi o de saber que iria acordar na Unidade de Cuidados Intensivos, e que não me preocupasse, porque teria um tubo enfiado pela goela abaixo, e que isso seria normal. Ou seja não tinha morrido e não estava na fase de ressuscitação.
Tive também outras explicações sobre a prótese aórtica a colocar (e também da hipótese de se fazer apenas uma reparação na existente).
Chegada a hora da janta, recebi alguns medicamentos para tomar, o Tantum Verde para desinfectar a boca e o Mycostatin para bochechar e engolir, e dois clistéres... Olá, então dão-me o jantar e querem que eu fique limpo logo a seguir? É assim o protocolo.
Também tive de tomar banho com um sabão neutro que parece que nos limpa de todas as impurezas. Tenho de perguntar se se beber um bocadinho deste sabão, também servirá para limpar a alma.
..................
Já passaram 3 semanas depois da operação, mas só agora tenho a disponibilidade física e mental para contar estas histórias.

23/08/2009

A história do Acto, vista pelo próprio [1]

Comecei pelos exames médicos. Obtida a papelada adequada fui para a recolha de sangue para análises. Retirei a senha e vi que tinha 17 números à minha frente. Ainda sem jornal para ler, fui ver como era o ambiente na sala de espera. E aqui entra em cena um Voluntário, que olha para a minha papelada, e vendo que eu sendo um pré-operatório, me diz o balcão onde me devia dirigir, porque era prioritário. O que foi bom, para quem não estava grávido nem suficientemente idoso para ter direito a tais mordomias.

A importância que têm nos hospitais este tipo de voluntariado, especialmente quando as pessoas estão mais fragilizadas.

Retirado o sangue era altura de ir comprar o jornal Público e finalmente tomar o pequeno almoço. Fui parar a um café, nas proximidades do mercado de Carnaxide onde fiz este pequeno intervalo para leitura e matabichar, antes de passar às próximas provas (RX e ECG).

Qual não foi o meu espanto, ao verificar que ao fim de alguns minutos as mesas da esplanada à minha volta estavam repletas de famílias espanholas, também a tomar o pequeno almoço. Não percebi. Carnaxide não está assim tão próximo da praia e não me consta que seja um normal destino turístico. A não ser que a fama do verbo "isaltinar" seja já tão grande que já se façam excursões atá cá, para ver como se faz.
Passei então aos outros exames.
Deram-me então folga para ir almoçar fora com a Margarida e voltar mais tarde. Fomos a um tasco, muito bom, que conheci recentemente: "
O Rastilho" em Barcarena.

Nas minhas novas responsabilidades na empresa tenho, por vezes, de andar por aí, na procura de terrenos para as infraestruturas necessárias à nossa actividade de distribuição de energia e nos contactos com outras entidadades, oficiais e privadas. O que é muito interessante.

Nos últimos anos, a minha actividade profissional tinha estado um pouco adormecida. Depois das azáfamas intensas e estimulantes que tive na área internacional da EDP, durante doze anos, passei então para outra estrutura onde as coisas, para mim, infelizmente, não funcionaram com o mesmo entusiasmo. Fui reclamando, fui fazendo o que me era pedido, mas não era a mesma coisa. E quando não se dá uso apropriado aos neurónios, eles vão adormecendo...

Ainda bem que as coisas estão a mudar. E é curioso que tudo isto aconteça no ano de 2009, em que o meu coração se estragou e agora depois de recauchutado poderá então ser-lhe dado um novo uso.

22/08/2009

Novo Boletim Clínico

A operação foi feita na manhã de 6ª feira, 14 de Agosto.
Depois da passagem pela Unidade de Cuidados Intensivos, Cuidados intermédios e pela enfermaria, regressei a casa na 4ª feira, 19 de Agosto, onde me encontro em franca recuperação.
Muito obrigado pelos incentivos, pelas orações e pelas preocupações manifestadas. Agora é ir andando devagarinho e em breve já devo estar operacional.

17/08/2009

A saga parte II


Resolveram desentubar o Tozé, o que na minha opinião, poderia ter demorado mais um bocadinho, porque até estava a saber bem não ouvir as boquinhas do costume. Para cúmulo, no dia a seguir, tiraram o resto dos tubos e agora ele anda por aí, tipo superherói com um coração novo, por isso aconselho precaução nas redondezas do hospital de Sta. Cruz.
No entanto, ainda não consegue correr, por isso estamos relativamente seguros, desde que mantida uma distância de segurança. Por este motivo, vou de férias para os Açores, e tendo em conta isto desejo-vos sorte, principalmente tendo em conta que agora vai ser o Boita a actualizar este bloggue.
"Isto está-se a compor!!!!"

Boitinha

15/08/2009


Pra melhor, assim está bem está bem. Pois é, a recauchutagem foi um sucesso, ao que parece a válvula estava bastante estragada e tiveram mesmo que substituir por uma mecânica.
Como sempre, o Tozé estava muito bem disposto como podem ver pela fotografia, exigiu até um fecho eclair daqueles todos xpto com duplo zip, jantes de ligas leve e luzes neon.
A única coisa que o aboreceu foi não poder ter o portátil na UCI, para poder continuar as memórias, por isso a boitinha carregou esse peso nos seus ombros e aqui estou estoicamente a deixar a minha mensagem.
A esta hora ele já estará a respirar sem ajuda e certamente vai me lixar a cabeça por não ter ilustrado este post com uma fotografia dantesca dele com tubos a entrarem por todo lado.
Amanhã a saga vai continuar, obrigado a todos pelo apoio, miminhos, por estarem sempre por perto.

Boitinha

14/08/2009

A Operação

A esta hora já devo ter um coração recauchutado.

Não se vão ver os efeitos para já.
Primeiro é preciso que todo o equipamento volte a trabalhar como deve ser. Depois os pontos que seguram o fecho éclair têm de fechar bem, para não entrar frio. Porque ter um coração frio não deve ser grande coisa.
Depois ainda vou ter de aprender a viver com o motor novo e fazer a rodagem.
Em breve teremos aqui mais notícias escritas pelos meus filhos.

13/08/2009

Testes Médicos

Deu entrada esta manhã, no Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide, um jovem com quase 54 anos, para fazer os habituais testes médicos, com vista ao reforço da equipa para a próxima época.
Para evitar a confusão habitual com a imprensa, entrou pela porta dos fundos,..., mas afinal por falta de coordenação do seu agente com os meios de comunicação social, não havia nenhuma equipa de reportagem da SIC (que até fica nas proximidades).
Os testes incluiram a colheita de sangue para verificar a sua qualidade, um Rx ao tórax e ECG (electrocardiograma), e para já chega.
À tarde e após um almoço no exterior (para prevenir as futuras refeições sem sal) dará entrada num quarto com vista para o rio e entrará em meditação para o grande encontro de amanhã, com o cirurgião, que irá fazer a substituição da válvula aórtica.


Nem toda gente tem a sorte de aos 54 anos poder fazer este tipo de recauchutagem e assim ficar com uma máquina renovada.

05/08/2009

Finalmente,,,, a operação

Finalmente vai começar a minha recauchutagem ao coração, estando a Operação marcada para 14 de Agosto.2009.

04/08/2009

Redondo, Ruas Floridas


Fomos ao Redondo ver as Ruas Floridas.
Muito bonito, boa companhia e boa gastronomia.

Atenção, o que está nas fotos é feito (tudo) em papel.
Temos de regressar, lá para Novembro para uma caminhada na Serra d'Ossa.

31/07/2009

Noites mágicas

Já tivemos outras noites mágicas como esta que agora vivemos no Pavilhão Atlântico, com o Leonard Cohen.
Actuou durante 3 horas, para um vasto público que enchia aquela sala espectacular. A frescura da sua juventude de 74 anos contagiou o pessoal presente.

Recordo noites semelhantes com Compay Segundo e com B.B. King, no Coliseu de Lisboa.

16/07/2009

Boletim Clínico

Castelo Novo

A Cirurgia Cardíaca do Hospital de Stª Cruz, em Carnaxide, está a fazer limpesas, enquanto o pessoal está de férias. Assim só devo ser operado lá para Setembro.

Entretanto o melhor é ir trabalhando e descansando quando se possa, para começar a nova época em grande, e depois lá irei à recauchutagem.

Castelo Novo

25/06/2009

Os telemóveis e a nossa vida

Os telemóveis alteram muito os hábitos das pessoas. Quando tocam, a meio de reuniões, congressos, na missa, etc. e como o número de quem telefona aparece no visor, as pessoas não têm coragem de desligar, e então fazem aquela cena caricata: "O pá, desculpa mas agora não te posso atender, estou numa reunião... ligo-te mais tarde". Que cena estúpida: não te posso atender, mas atendi. Gastaste uma chamada e não falamos de nada, e a operadora móvel agradece. Só se for para animar a economia.
Ora não seria mais prático, como se fazia com os velhos telefones fixos, que quando não se podia atender, eles tocavam e se ninguém podia atender ligavam mais tarde. Esta ideia fixa de que a vida é feita ao ritmo do telefone e do imediato, não nos leva a lado nenhum. Ainda por cima como fica registado o número no nosso telemóvel, podemos sempre reatar o contacto, então em momento oportuno.

Embirro quando me perguntam num telefonema para o telemóvel: "Desculpa, mas não sei se me podes atender... ou se agora é oportuno...!" Se não fosse oportuno porque é que eu atenderia o telefone? Não é assim que fazemos noutras coisas da nossa vida. Se não posso, não vou ou não faço.

À Espera

Um mês depois da saída do Hospital, estou à espera, sentado, da oportunidade de fazer uma recauchutagem ao coração, que na linguagem das lilicinhas se poderia chamar um lifting, que me deverá deixar seminovo, como se anuncia na venda de automóveis.

Entretanto, no regresso a casa, alguns dos hábitos hospitalares ficaram. Continuo a acordar por volta das 6 h/6:30 h da manhã. Era a hora a que começavam as actividades de limpeza no hospital. Passei a fazer uns lanches a meio da manhã e da tarde, e antes de deitar lá vai uma bolachinha com leite. Se no final isto me der um melhor equilíbrio, e uma vida melhor, sempre posso dizer, como é hábito entre nós, "afinal ainda tive muita sorte com esta doença"!

23/06/2009

Os tarifários e a nossa vida

Nos primeiros dias em casa recebi vários telefonemas de amigos, à noite, que queriam saber de mim. Achei estranho que as conversas se prolongassem por muitos minutos, com alguns mais de meia hora. Até parecia as conversas de mulheres... pormenor para aqui, mexeriquice para acolá, e a conversa nunca mais acabava. Uma das vezes até fiquei com o jantar a meio, que a bem dizer, não tive coragem de dizer àquele amigo que não era a hora mais oportuna.
Mas foi bom receber estes telefonemas porque assim fiquei a par do que tinha acontecido à minha volta.
Só então verifiquei que com os novos tarifários das operadores de telecomunicações, net e TV, e com a possibilidade de telefonemas sem tempo definido incluídas no pacote, não há oportunidade que o português não aproveite e assim vá de telefonar aos amigos.
Eu imagino o que será o entupimento no tráfego de voz em algumas casas.
É assim que estes tarifários das empresas privadas, mudam os hábitos dos portugueses. E andam alguns ainda a pensar que a culpa é do Governo...

09/06/2009

O Trabalho e o Contribuinte [35]

Ao longo do mês em que estive hospitalizado aproveitei o tempo livre de tratamentos para me manter a par do que se passava no meu departamento e com a ajuda da rede móvel no PC portátil fui fazendo o que podia do meu trabalho. É que estando doente do coração não estava inválido.
O meu trabalho na EDP hoje em dia, é quase todo feito a partir do computador no gabinete. Recebo os pedidos de trabalhos, faço os contactos por e-mail ou telefone e envio as respostas. Como não podia ir ao terreno, combinei reuniões para outros lá irem e quase tudo se vai mantendo activo. E faço isso com grande prazer. E assim é foi muito mais fácil aguentar o tempo de clausura no hospital.
Achei muito estranho que algum@s amig@s me tivesses questionado sobre esta atitude, como se fosse completamente incompatível o estar doente (e de baixa) e continuar a trabalhar. Como se o trabalho fosse tão penoso para a vida, que até pudesse colocar em causa a minha saúde.
É certo que estes reparos vieram de quem tem um contrato de trabalho com o Estado. Será que é também aqui que se vê que o trabalho não é visto da mesma maneira se o patrão for o Estado (e o Contribuinte) e não o Cliente que nos paga o serviço prestado?

04/06/2009

No regresso [34]

Quando se regressa depois de um longo período de ausência, encontram-se as coisas um pouco diferentes. O Provedor de Justiça ainda não foi substituído… e ainda há pouco tempo se falava das virtudes de um Bloco Central para resolver os problemas do país.
Muitos dos casos da justiça portuguesa, como o da Casa Pia ainda não teve nenhum desfecho. Bem preciso de uma válvula aórtica com uma longa validade para poder saber afinal o que se terá passado ali.
O FCP ficou também com a Taça, restando aos outros, e em especial aos do Benfica um humor retemperador:

Como é que se sabe, se um automóvel é antigo ?
Se houver um autocolante no vidro traseiro a dizer "Benfica Campeão".

Porque é que o Benfica vai passar a ser patrocinado pela BP ?
Porque a BP dá pontos.

Porque é que os benfiquistas vão começar a plantar batatas nas margens do relvado ?
Para terem algo no final da época.

O que é que o general Pinochet e o Benfica têm em comum ?
Ambos juntam as pessoas em estádios de futebol para as torturarem.

O que é que o Benfica tem em comum com os tomates ?
Também é vermelho, participa na festa, mas nunca chega a entrar...

O que é que o treinador do Benfica diz quando a equipa marca um golo ?
"Fantástico. Agora vamos tentar marca na outra baliza..."

Sabe quando é que o Benfica vai ser campeão ?
Quando o Estado acabar com as listas de espera.

Sabe porque é que o Quique Flores veio para o Benfica ?
Porque os médicos mandaram-no afastar-se do Futebol.

Qual a semelhança entre o Benfica e o Pai Natal ?
Os dois são vermelhos, aparecem uma só vez no ano e só os inocentes acreditam nele...

Qual será o nome da Nova Claque Organizada do SLB ?
Vai nascer da união das claques organizadas do Benfica e vai ter o nome «M.S.T.» (Movimento dos Sem Título)

Afinal o SLB ainda está nas TRÊS FRENTES ?
Claro, são elas:
1. FRENTE ao Colombo
2. FRENTE à Mediamarkt
3. FRENTE à Repsol

Porque razão o próximo patrocinador do Benfica será a Tampax ?
Porque o clube está a atravessar um mau período.

27/05/2009

O Cateterismo e o sorriso EDP [33]

Trabalhar na EDP tem normalmente implicações no relacionamento com as outras pessoas, tal como já referi num outro texto "O Roupão da EDP".
Também me aconteceu durante o Cateterismo. Na troca de impressões inicial com o médico, durante a preparação do corpo para a entrada do cateter, lá chegamos à EDP.
Eu que estava ali para ver o estado das minhas canalizações na chegada do sangue ao coração, e sendo um doente com tensão alta, tive logo a oportunidade de saber de um problema de tensão baixa.
A diferença é que a minha é a tensão arterial e a dele era a tensão eléctrica.
Acabou por ser um diálogo interessante, e com muitos sorrisos, porque é a falar dos nossos problemas comuns que mais fácil nos entendemos e assim já tenho um caderno de encargos para tentar resolver depois do regresso ao trabalho.
Ah, o Cateterismo...
Quando era pequeno a minha mãe (Gracinda) obrigava-me a esfregar bem as orelhas por dentro e por fora para não haver lá sujidade suficiente para se plantarem lá couves... era assim que ela dizia.
Quando soube que tinha problemas no coração também nas lavagens matinais esforcei-me ao longo dos anos para o lavar bem por fora, como se estivesse a esfregar a alma. Afinal resultou nalguma coisa, porque tinha a canalização toda limpa.
Difícil, difícil, não é fazer um Cateterismo. Aquilo que eles tinham escrito no texto que me foi entregue na véspera, aconteceu tal e qual, e na conversa com o médico, no meio dos problemas das tensões, também fui sendo avisado das pequenas sensações que iria sentir.
Difícil mesmo é arrancar os pensos quando por baixo temos pêlos. Isso é que é doer a sério.

26/05/2009

Boletim Clínico (actualização) [32]

Ao fim de 31 dias de cativeiro no Hospital Pulido Valente, os bichinhos estão mortos [acabou-se a Endocardite], a canalização estava desentupida [cateterismo] e agora vou para a recauchutagem.

Mas como a insuficiência aórtica sendo grave, mas não tanto para ter de passar à frente dos que estão na bicha. Assim deverei ser operado no início de Julho.09.
Assim, faço um intervalo para ir trabalhar a partir de 2ª feira, para que não se sinta a minha ausência nos resultados da EDP.

22/05/2009

Urgências [31]

Desta vez, e já a partir de casa, aqui vai uma pequena reflexão que as notícias de hoje me sugeriram.
Quando eu comecei a ter febre, há uns meses atrás, apareceu como grande preocupação a questão da eleição pelo Parlamento de um novo Provedor de Justiça, para substituir o, já farto de esperar, Nascimento Rodrigues.
Depois de umas semanas de discussão sobre quem tinha a culpa, e devido à urgência na resolução do assunto, lá se marcaram para hoje, talvez uns dois ou três meses depois a respectiva eleição, após a apresentação de 4 candidaturas, porque os partidos não se entenderam sobre as culpas, e portanto cada um apresentou o seu.
E hoje votaram, e claro cada um votou no seu candidato e portanto não ficou ninguém eleito. Mas como é urgente resolver o assunto, em vez de fazerem nova eleição entre os dois mais votados, meia hora depois, marcaram-se novas eleições para daqui a uma semana.

Imagino o que teria sido da minha vida, se no momento em que os médicos verificaram que era urgente resolverem a minha Endocardite, se pusessem com discussões sobre de quem seria a culpa e apresentassem vários hipóteses de solução, a esta hora já eu estaria numa quinta das tabuletas.
Como sugestão de melhoria para o próximo Parlamento, seria bom que cada deputado fizesse um estágio numa qualquer urgência hospitalar, só para se treinarem para tomar decisões urgentes.

Finalmente vão levá-lo para casa [b]

Este blog, tem sido muito interactivo, e aqui está este balanço da minha vida durante o último mês, feito por amigo:

Tenho um amigo, boa pessoa, que há uns meses começou com problemas de saúde. Tosse, pernas fracas, pouca força e a família farta de o aturar doente e a trabalhar cada vez menos, instituciolalizou-o ou pelo menos alojou-o num hospital – aquele que antigamente era dos tuberculosos – onde ele permanece já vai para um mês.
Entre a mulher e os filhos, passam por lá a vê-lo, embora houvesse quem tenha aproveitado para ir viajar e tudo.
Podem pensar que, assim, ao menos sempre ia descansar. Engano! O chefe não perdoou as faltas ao trabalho e mandou montar na própria enfermaria tudo o que é necessário para continuar a labutar, agora até sem fins-de-semana de descanso. Com isso ele até adquiriu algum estatuto. Tem a sua encherga no meio da camarata onde está sentado a trabalhar, apreciado por todos os outros colegas que como ele para lá estão, vítimas dos maus corações.

Mas finalmente o hospital, que já o considera catita e apto a viver sem pijama, conseguiu negociar com a família e ele vai voltar para casa.
Vamos ver como se vai readaptar à casa pois vai voltar a ter de lavar a loiça, cozinhar, participar na lida da casa, em vez de esperar calmamente que lhe tragam a almocinho, a pastilhinha, o sorozinho, o sorozinho, a pastilhinha e o jantarinho.
À cautela vai só de fim-de-semana, com a desculpa de voltar na segunda feira para fazer um exame, mas todos sabemos que se não se der bem em casa pede de novo asilo no hospício.

É de esperar que corra bem pois ele até se adapta a tudo. Lembro-me por exemplo que uma vez fomos de férias para uma terra na outra banda do mar e queríamos beber café, mas lá não havia. Com esse nome só tinham uns baldes de água escura (mas não muito escura) e todos sofríamos, menos ele que bebia daquele cafú satisfeito e dizia “em Roma sê romano”, o que nos fazia lembrar ainda mais dos bons expressos de Roma.

E o que vai ser agora de mim que, quando não tinha mais nada para fazer, passava pelo hospital para dar uns dedos de conversa? Lá terei que ir para a Alameda ou a Estrela jogar às cartas ou, como felizmente veio a bom tempo, posso ir passear para a margem do Tejo e até talvez compre uma cana de pesca.

Claro que, se confrontarmos a família com estes factos, vão dizer que é mentira, que não foi nada assim, vão virar o bico ao prego e dizer que é tudo ao contrário, mas nós estamos carecas – e eu cada vez mais – de saber como as pessoas são.
Bom regresso a casa, um abraço

José Beirão

21/05/2009

A propósito de doenças [30]

(dos jornais)

"O Franco, tal como o Hitler, soube-se agora, só tinham um testículo. Perderam o outro em batalhas anteriores à sua chegada ao poder"

Ou sejam, foram ditadores mas não tinham tomates.

O Pijama [29]

Aqui neste Hospital, tal como em qualquer outra empresa, existe uma hierarquia de fardas.

Os médicos de bata branca e sempre com aquele colar tradicional, o estetoscópio (1), e muitas canetas de diversas cores nos bolsos.
Não sei bem o que acontece se um médico for apanhado sem estetoscópio. Terá de ir a algum curso reciclagem?
De manhã aqui neste serviço os médico têm um corrupio de actividades. Falam com os doentes, se passaram bem a noite e pegando nos dossiês, analisam a evolução dos tratamentos, o registo das análises e das medidas de temperatura, pressão arterial e diurese, e fazem os reajustamentos da terapêutica.
E no final têm de dar as explicações aos doentes que querem saber do seu futuro, e este assunto às vezes não é nada fácil.

As futuras médicas (a Anatomia de Grey, que por aqui passa), já vestem da mesma forma que os médicos, mas são muito mais mulheres que homens. Depois de qualquer indicação do médico que as orienta, discutem em voz baixa nos corredores, para ver se apreenderam tudo bem.

Com esta fornada de médicas, num futuro muito próximo, vai ser um regalo para os homens irem parar ao hospital. É que vão ter uma população esmagadora de mulheres para lhes tratarem da saúde.

As enfermeiras, de bata branca, sempre solícitas, mudando de luvas a toda a hora, para aplicarem os curativos e pensos e procederem à administração dos medicamentos, e dos diversos produtos injectáveis. São elas que vigiando e avaliando em permanência os doentes, com a colaboração das auxiliares, transmitem de turno em turno, vão mantendo o comboio em andamento.
Aqui neste serviço as enfermeiras são muito novas, numa média inferior a 30 anos. Disseram-me que é uma situação generalizada noutros serviços e hospitais, e que se deve ao facto de nos últimos anos, devido às muitas alterações nas carreiras da função pública e na gestão dos hospitais, as mais antigas se terem pré-reformado ou mesmo reformado.
Esta juventude e eventual menor experiência profissional são compensadas pela maior disponibilidade e atenção aos doentes, fruto também da diferente formação que tiveram.

As auxiliares, de uniforme azul celeste, sempre disponíveis para as diversas ajudas pedidas pelas enfermeiras e médicos, e para ocorrerem aos doentes, que querem sair da cama para ir para o cadeirão, que querem subir ou baixar a cabeceira da cama, para dar banho ou fazer a barba aos que não o podem fazer sozinhas, e são também elas que nos distribuem a comida e nos fazem a cama e fazem a limpeza geral do serviço.
De resto aqui a alvorada matinal, por volta das 7 h, é feita pelas auxiliares com o barulho das tampas dos caixotes, quando andam a recolher o lixo de todas as salas.

Às vezes, principalmente à noite, andam todos e todas vestidas de verde, e às vezes não se sabe quem é quem (à parte o estetoscópio).

E finalmente os doentes, de pijama, camisa de dormir e robe, de diversas cores.
É isto que nos distingue dos outros habitantes desta pequena comunidade. De tal forma isto é importante que um dia destes, um dos meus companheiros de sala foi informado pelo médico, logo pela manhã que iria ter alta a seguir ao almoço. E ele não foi de modas, pegou logo na roupa civil e foi à casa de banho mudar-se, e apareceu na sala fardado de não-doente.
Nem queiram saber a confusão que isso causou. Levou uma série de raspanetes de todos, porque os doentes só deixam de ser oficialmente doentes, quando os papéis estão todos assinados e as terapêuticas preparadas, ou seja tudo nos conformes.

Como se vê por esta descrição de cores, o Benfica nem aqui tem qualquer hipótese.
______
(1) - O dr. Rui Cordeiro esclareceu-me mais tarde que o estetoscópio é fundamental para a actividade dos cardiologistas, e que é muito difícil colocá-lo no bolso, onde já andam muitas outras coisas.

20/05/2009

Mais incentivos [28]

Outras mensagens recebidas por e-mail ou SMS:

[Viena, Áustria]
"Manda a bactéria pro caraças e põe-te porreiro pá".

[Lobito, Angola]
"Então pá, andas a imitar-me ?"

[Arroios, Lisboa]
"Tenho uma surpresa para ti mas não te posso dizer! até já."

[Beja]
"Com válvulas novas, ficas como um homem novo"

[Alvalade, Lisboa]
"Espero que pelo menos o programa de massagens seja ao teu gosto. Vai contando os detalhes … os que se puderes contar!!!"

[Paris, Lisboa]
"De facto parece-me muito perigoso tirar dentes ao coração e é natural que dê infecção. É quase tão bom como pôr um pace maker na boca para se mastigar com mais ritmo."
“O senhor teve foi azar na época em que foi internado. Se tivesse sido pelo Natal talvez até tivesse palhaços ao vivo e não só na televisão como descreveu”.
"E penteie-se. Um coração penteado tem um sopro muito mais bonito."
"Espero que vá pramelhor, até um dia destes e cumprimentos à sua senhora que lhe dá o xarope."

[Cabinda, Angola]
"Na verdade espero que te livres disso o mais depressa possivel. Por aqui a internet está um caos mas não sei porquê agora consegui captar para fazer este mail e não vou abusar da sorte."

[Infantado, Loures]
"Um grande beijinho, continuação de boa disposição, as melhoras e cuidado com as enfermeiras, algumas são atrevidas..."

[Marquês de Pombal, Lisboa]
"Pelo que li a agenda aí no hotel está bastante preenchida. Também reparei que das 4 garrafas três já foram despachadas (as mais apelativas)."

[Odivelas]
"Ter essa actividade toda e poder andar de pijama não é para todos."

[Montemor, Loures]
"Exige também um pedido de desculpas à Santa Casa, por não fazerem o Euromilhões mais fácil!"

[Jerusalém, Palestina/Israel]
"E tu, quase pronto para ir fazer a troca da válvula? Isso deve ser como trocar um tubo de escape não? Ou talvez mais como as válvulas da bateria?"

Boletim Clínico [27]

Depois de uma nova ETE (Ecografia Trans-Esofágica), efectuada na 3ª f, 19.Maio, verificou-se a morte da bicharada. Assim na 6ª feira, 22.Maio.09 devo ter alta.
Vou até casa, passar o fim de semana, para retemperar forças e preparar a próxima época. Vou ver se apanho um bocadinho de Sol, porque depois destes dias de cativeiro, tenho a pele da cor do roupão da EDP.

Volto cá ao Hospital na 2ª feira para fazer um cateterismo (1).
E na próxima 4ª feira vou a uma consulta de cirurgia cardíaca no Hospital de Stª Cruz, para preparar a Operação do Coração.

Alexander Fleming (1881-1955)
Descobridor da Penicilina em 1929

Neste caso, o boletim clínico não acaba com os tradicionais: "mãe e filho encontram-se bem!" ou "prognóstico reservado".
Mas pode ter uma palavra de ordem: abaixo a bicharada e vivam os antibióticos !

(1) Cateterismo é um exame cardiológico invasivo feito para diagnosticar ou corrigir problemas cardiovasculares, como por exemplo, a visualização de um estreitamento, geralmente formado por uma placa de gordura, na artéria coronária.
O médico faz um corte na virilha e selecciona um vaso sanguíneo (veia ou artéria). Por esse corte é introduzido o catéter (sonda de 2,7 milímetros de diâmetro e um metro de comprimento), que percorre o vaso até chegar ao coração.
Pelo catéter é injectado um líquido de contraste radiológico, à base de iodo, que permite visualizar, por meio de um aparelho de raio-X, os vasos e cavidades do coração.
As imagens internas do coração e os vasos são registadas com tecnologia que auxiliam na análise posterior do exame.

Incentivos e oportunidades de melhoria [26]

Algumas das sugestões e incentivos recebidos por e-mail, com indicação do local da sua proveniência:

[S. Miguel, Açores]
"Aproveita aí o hotel à borla, olha que férias dessas em tempo de crise, não são muito frequentes."

[Mindelo, Cabo Verde]
"Gostas de arranjares avarias com nomes técnicos complexos. Isso se calhar pode reparar-se com uma caixa de junção unipolar termo-rectráctil(a) e um bocado de tempo".

(a) jargão técnico só para entendidos em avarias em cabos eléctricos subterrâneos

[Rabat, Marrocos]
"Je prierai pour vous, que dieu fasse que vous alliez mieux et que votre coeur devienne plus fort et que votre vie future soit remplie de bonheur et de santé"

[S. Pedro do Estoril]
"Só mesmo tu estarias activamente do hospital a enviar acalmias aos amigos, explicações, guias de viagem nesta estação em que agora paraste. Sempre a subir, neste caso, graças a Deus! Que as maravilhas da vida em saúde te voltem a chegar em breve, e rezando por ti, cheios de optimismo, claro!"

[Paço do Lumiar, Lisboa]
"Se te tivesses mantido fiel às frescoladas (b) e não abusasses do café, estavas agora com ácido úrico mas bem do coração"
(b) ou seja umas cervejolas e um tinto para rebater num boa almoçarada


[Famalicão]
(A propósito do texto sobre a Anatomia de Grey)"Pediram-me, muito delicadamente para eu me despir da cintura para cima, e tendo o cuidado de aquecer o estetoscópio, aqui andaram a apalpar, à procura do som do sopro do meu coração." ... querias que fosse outra coisa ? com tanta beleza à tua frente e com a fome que andas e a falta de sal que dizes ter ... até o coração se normalizou ou até se pôs bem demais. Quem me dera ser doente nessas alturas de tantas visitas!?

[Luz, Lisboa]
Pois, isto é como as máquinas: passa o prazo de garantia e avariam. Agora já pode actualizar o blog do SaD. Tem que justificar o que come no tasco aí do hotel.

[Luanda, Angola]
Acredito que aí não haja torresmos, bifanas e ovos mexidos com farinheira...por certo haverá boas e simpáticas enfermeiras. Acho que o SLB deverá ser o grande culpado desse entupimento.

[Pragal, Almada]
Então, amigo, foste prevenir a gripe suína para o Hospital? Se a pandemia se verificar, és logo dos primeiros a ser socorrido, não é verdade?

19/05/2009

A maré do meu amor ergueu-se tão alto [25]

Alguns amigos têm colocado comentários no blog com incentivos e propostas de melhoria. Outros enviam-me por e-mail.
Vou aqui partilhar algumas dessas contribuições:
De um amigo que esteve recentemente no Irão:

Escreve mil segredos luminosos nos muros da existência
para que até um cego se possa aperceber da nossa presença
e juntar-se ao que nos alegra.
.......
A maré do meu amor ergueu-se tão alto
que me perdi em ti.
Fecha os teus olhos por um instante
e talvez todos os teu medos e fantasias se calem de vez.
Se isso acontecer Deus será uma criança nos teus braços
e terás que amamentar toda a Criação

Hafiz
Poeta que viveu em Shiraz, Irão (1320-1389)

Marrocos, 2003 [TGP]

Lixo tóxico [24]

Como devíamos saber quando se passa os 50 as peças começam a falhar, e às vezes começam pelo motor.

Nestes tempos de crise financeira, começo a convencer-me de que afinal o meu coração deve ter tido uma falha de regulação e deixou entrar o lixo tóxico e agora estou a pagar as favas.

Abaixo a bicharada e vivam os antibióticos !

Cabo Espichel, 2008 [AJP]

18/05/2009

Cá vamos andando [23]

Vou estando melhorzinho
e a bicharada vai desaparecendo
na próxima semana deve começar a ser preparada a operação para mudar a válvula aórtica
(já pedi que me arranjem uma que tenha um prazo de validade até aos 97 anos, é que não faço a coisa por menos, porque ainda gostava de saber o desfecho do Processo da Casa Pia e ver o Benfica ganhar um campeonato)
 
e depois é voltar à vida normal, com um coração mais bonzinho.

17/05/2009

Será que devo pressionar os médicos? [22]

Ao fim deste tempo no hospital, estou mais sensível às modas que a política portuguesa nos mostra nos meios de comunicação social. É que lá por fora o barulho do dia a dia vai esbatendo tudo isto.

Quando aqui cheguei foram os empurrões do 1º de Maio. E foi um corrupio de aproveitamentos.
Empurrem-no muito que nós precisamos de ganhar as eleições. Exigimos que nos peçam desculpa. Não pedimos desculpa, porque eles é que nos devem pedir desculpa.
E no final talvez tenha sido a RTP Memória que ganhou com a exibição das cenas antigas de Mário Soares na Marinha Grande.

Depois foram as guerras no Bairro da Bela Vista. É um caso social ou um caso de polícia?
E aqui os partidos e certas personalidades vão dando palpites.
São os pobres que roubam carros, arranjam armas automáticas e vão assaltar ourivesarias, multibancos e estações de gasolina ?
Ou são gangues de jovens delinquentes que vivem apenas desta forma de vida, e que não têm relação com a gente honesta e talvez pobre que vive na vizinhança ?

Também tivemos a decisão do Manuel Alegre.
Segurem-me senão vou fazer um novo partido.
Afinal seguraram-no e não vai fazer nada de novo e vai ficar à espera que o escolham para candidato à Presidência da República.
Tenho dificuldade em perceber todas estas indecisões de quem passou todo o tempo de deputado no mesmo partido, de vez enquando a fazer as suas diabruras, mas sem nunca sair. Tenho a impressão que quando existem convicções fortes, e se elas não são aceites pelo partido, o melhor seria partir para outra.
Mas é difícil deixar o poder e o permanente protagonismo.
É por isso que há sempre muitos candidatos a presidentes dos clubes de futebol.

Mas também temos as pressões sobre o Freeport.
Anda-se para aí a gastar tempo precioso de investigação a ver se num almoço, alguém mandou uma boca do estilo: despachem-se lá com esta coisa, senão ainda vão acabar de investigar isto depois do caso Casa Pia.
Coitadinhos dos procuradores que não podem ser empurrados para investigar. O melhor é não irem à manifestação do 1º de Maio…
Há coisas, que vistas aqui do hospital não se percebem bem. Afinal o que interessa não é saber se houve ou não dinheiro por baixo da mesa para aprovar aquilo ?
A não ser que os eventuais implicados tenham fábricas de fazer notas, o melhor era espiolhar as contas e ver se houve ou não movimentos suspeitos e que se possam investigar.

Pronto, mas isto é um doente do coração a querer simplificar…

Mas agora estou a pensar se devo pressionar aqui os médicos para se despacharem em relação à minha doença.
Mas e se eles embirrarem e resolverem pedir um inquérito.

Ainda me arrisco a ficar aqui à espera, até que o Benfica ganhe um campeonato.

Os nomes das doenças [21]

A partir de certa idade, é costume dizer-se que, quando não se sabe a origem de qualquer doença, que deve ser da PDI (para aqueles que não conhecem, significa a Puta Da Idade).

Mas hoje amigos transmitiram-me que também existem outras designações também muito apropriadas.
DNA ou PVC. Explicando melhor:
DNA = Data de Nascimento Antiga
PVC = Porra da Velhice Chegando

16/05/2009

Muito Obrigado a Tod@s [20]

Ao fim destes 24 dias de cativeiro, acompanhado pela Endocardite, que agora deve estar quase a desaparecer, estou muito agradecido às muitas visitas que por aqui passaram (cerca de 70), aos outros amigos que têm telefonado e muitos e-mails, além dos 22 comentários que foram colocados neste blog. Assim tem sido mais fácil viver aqui.

Aproveito para partilhar aqui, um dos comentários recebidos de uma amiga, que enviou um poema, "para despertar o arco-íris que pode estar escondido, por detrás do horizonte dos que resistem mais a adaptar-se ao ambiente hospitalar, pois não deve ser nada fácil..."
Receita para fazer o azul

Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz – eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé – e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.

Nuno Júdice
Meditação sobre ruínas, Quetzal-1994

15/05/2009

O Hospital Pulido Valente e a Crise [19]

Junto aos hospitais costuma estar um sinal de trânsito alertando para a proibição de buzinar nas suas proximidades. E isso é importante para o sossego dos doentes, já lhes bastando o barulho do movimento do tráfego rodoviário e aéreo durante todo o dia.No entanto, talvez para dinamizar a economia nestes tempos de crise, com mais investimento público, o Hospital Pulido Valente está a fazer obras no andar por debaixo daquele em que estou instalado, e é um barulho ensurdecedor durante todo o dia, com o partir de paredes e demais obras da grande remodelação que está a ser feita.

Claro que só pode ser para benefício dos doentes e do funcionamento do Hospital.
Assim o sinal que deveria estar à entrada do edifício onde estou a morar actualmente deveria ser este.

13/05/2009

Nem toda a gente se dá bem por aqui [18]

A maioria dos meus vizinhos dá-se bem por aqui. Vamos conversando, trocando experiências e esperando ansiosamente pela alta hospitalar.
Para aqueles que vão estando mais desanimados, lá lhes vamos dando algum alento, contando histórias, algumas anedotas e partilhando as nossas vidas. E são os médicos, as enfermeiras e auxiliares que vão tentando explicar calmamente o que se está a passar, para que servem os tratamentos, e explicando a situação de cada doente, para que em cada momento se saiba o que está previsto acontecer.
Mas nem sempre é fácil. Há exames para fazer, há resultados que não batem certo. E o corpo humano não é bem um relógio em que cada uma das peças sabe exactamente o que tem de fazer. Às vezes, existem muitas interferências, e em especial nos mais idosos, os sintomas cruzam-se, e entram para aqui com um problema no coração mas já trazem atrás de si um manancial de doenças de difícil resolução.
Enfim quando se está nesta clausura durante muito tempo, sonha-se com a data da alta, para que tudo possa voltar à normalidade.

Disseram-me também que há doentes que quando o médico lhes diz que têm alta, dali a pouco começam logo a queixar-se de dores no peito, para ver se continuam internados no hospital. É que há por aí muito abandono familiar, maus tratos e muita solidão, que uma estada num hospital ajuda a esquecer.

Há quem não goste da comida, porque isto de ser sem sal, custa a habituar. Há quem não goste de sopa (com ou sem sal). Há quem não esteja habituado a este tipo de vida de clausura.
Há também quem goste de tudo, usando do optimismo, porque se tem de ser assim, não será daí que o gato vai às filhoses.

Há também aqueles doentes que protestam por tudo e por nada. Não percebem que viver aqui, numa pequena comunidade, em que as necessidades e urgências de tratamento, não se compadecem às vezes com as suas exigências individuais.

É com isto que todos vamos vivendo no dia-a-dia. E para mim, já passaram 21 dias. Já sou um veterano.

11/05/2009

As coisas que se vêem daqui [17]

Aqui deste meu posto de trabalho, em frente à TV, vou-me dando conta de certas coisas que passam ao longo do dia e que habitualmente não reparo.

Ontem quando a RTP 1 iniciou a reportagem sobre a festa do FC Porto, pela conquista do campeonato, com as imagens do estádio do Dragão, apareceu em rodapé:
FC PORTO TRETA CAMPEONATO

Só alguns segundos depois devem ter dado conta do erro, e então lá emendaram para
FC PORTO TETRA CAMPEONATO


Deve ter sido algum coração (verde ou encarnado) empedernido e muito triste por tal ocorrência que achou por bem dar largas à sua revolta com aquela atitude.
É certo que se foi usado o corrector ortográfico não se daria pela diferença.
Mas eu não tenho dúvida de que foi um campeonato bem ganho e sem tretas.
Mas assalta-me sempre uma dúvida. Como serão os campeonatos nacionais daqui a uns anos, quando o Pinto da Costa já não for o manda chuva. Tal como será a Madeira quando o Alberto João Jardim se reformar.
Tenho impressão que isto anda tudo ligado.

10/05/2009

O Estado da minha Crise [16]

Hoje é o 18º dia de permanência aqui.
Já recebi 117 doses de antibióticos, além de vários outros medicamentos para nivelar a tensão arterial, para proteger o estômago e para outras coisas que agora já nem me lembro para que servem.
Segundo parece, através das análises de sangue que vão sendo efectuadas, a bicharada que me atacou o coração, está a morrer aos poucos.

No resto do tempo vou-me mantendo ocupado com o trabalho da EDP, com a leitura de jornais, com visão de filmes e alguma TV. Alguns amigos têm-me questionado sobre o que é isso de estar no hospital (de baixa) e continuar a trabalhar. Tenho-lhes explicado que actualmente na minha empresa e na minha actividade em concreto, todo o trabalho passa necessariamente (e quase em exclusivo) pelo computador. Só ficam de fora as reuniões e as saídas em serviço para contactos. Assim aqui nos hospital recebo os trabalhos, faço os contactos por e-mail ou telefone e envio as respostas. Marco reuniões para outros lá irem e quase tudo se vai mantendo activo. E faço isso com grande prazer. E assim é muito mais fácil aguentar este tempo de clausura aqui no hospital.
Quanto aos porquinhos do México ainda não os vimos por cá.

As Aventuras de um Coração Atrapalhado / Pequenas histórias de vidas [15]

Aqui pela minha sala já passaram 8 doentes. Como já cá estou há 18 dias, já sou um veterano e vou vendo-os partir. Numa destas noites apareceu o sr. J, um jovem de 78 anos. Vinha do hospital de Elvas. Estava muito preocupado com o funcionamento deste hospital, que não conhecia. Não tinha cama e por isso começou por ficar numa maca na nossa sala.

Aprendi com o meu avô João Boita e com o meu pai, que é fundamental para quebrar o gelo numa relação, saber desde logo de onde vem, onde nasceu, qual a sua actividade, etc.
E logo nessa noite fiquei a saber que era do concelho de Marvão, mas da Portagem. Local que eu conheço bem por já lá ter acampado e tomado banho na pequena represa aí existente. E assim continuamos as nossas conversas partilhando conhecimentos.

E isto é o que vai acontecendo com quase todos os que por aqui passam.
Este convívio forçado pela doença leva-nos a conhecer estas pequenas histórias de vidas, que por acaso se cruzaram num serviço hospitalar.

08/05/2009

A propósito das posições do Bispo de Viseu

O Bispo de Viseu fez recentemente algumas declarações sobre a utilização do preservativo no caso da SIDA, do divórcio, do enriquecimento ilícito, etc. que podem significar uma nova forma de ver estas questões e que merece um encorajamento.
Foi isso que fizemos nesta mensagem que lhe foi enviada por e-mail:

Sr Bispo
D. Ilídio Leandro,

Temos acompanhado com muito interesse as suas recentes declarações sobre a questão do preservativo, do divórcio, do enriquecimento ilícito, e demais posicionamentos que nos parecem muito interessantes. É certo que estas suas declarações, se vistas desgarradamente, levaram a pretensa divergência com a doutrina oficial.
A nós, e sem o conhecer, estamos convencidos de que se trata de muito mais do que isso.
Tal como disse a propósito da sua nomeação "sou um de entre vós e quero estar, viver e caminhar convosco e, para isto, quero contar com todos vós", e por isso aqui estamos a transmitir-lhe a nossa opinião.
Nos últimos anos, e principalmente após o Concílio Vaticano II, se é certo que se avançou em muitos campos, nomeadamente nas questões sociais, no que diz respeito à família, à procriação, ao prazer de viver, a Igreja oficial tem-se posto à margem e não soube acompanhar as alegrias e tristezas dos filhos de Deus. Não tem sido sensível a uma série de questões, nomeadamente no que diz respeito ao planeamento familiar, à utilização de meios contraceptivos "artificiais" e à garantia de que um casamento é também uma fonte de prazer de viver.
Que sentido faz hoje condenar meios "artificiais" no planeamento familiar, quando cada vez mais são os muitos meios artificiais que nos mantém vivos mais tempo? Vejam-se os diferentes tipos de próteses, pacemakers, válvulas, transplante de órgãos, etc. que a ciência em boa hora tem desenvolvido, assim ajudando a debelar muitas das nossas enfermidades.
E no que diz respeito ao divórcio, quando após muitas tentativas feitas, o amor acabou mesmo. A violência doméstica que tantas mortes tem causado, será também uma das situações a encarar para esta discussão. O tempo em que os casais se mantinham juntos e casados, sem qualquer discussão, era quase sempre uma forma de submissão da mulher que abdicava de tudo, para que as aparências se mantivessem.
O acolhimento na Igreja dos que se divorciam é feito por alguns grupos, mas infelizmente muito dificilmente aceite pela instituição oficial.
Há muitos outros assuntos de que lhe poderíamos falar. Alguns exemplos: a falta de aceitação de um papel mais determinante das mulheres na Igreja. A Igreja é maioritariamente feminina, mas é dirigida em absoluto pelos homens. A sociedade em que vivemos já não é assim, apesar de muitas discriminações ainda existentes.
Há ainda a obrigatoriedade do celibato dos padres e outras concepções baseadas apenas na tradição e não no que foi deixado por Jesus Cristo aos Apóstolos.
É muito importante que apareçam bispos que sejam transmissores de muitas destas questões, que vão preocupando grupos dentro da Igreja e que não têm tido eco nas instâncias decisivas.
A nosso ver, esta nossa Igreja precisa de dar passos decisivos na discussão e resolução deste tipo de problemas e deixar-se de preocupar em fazer regressar ao interior da Igreja aqueles, tais como os seguidores de Lefèvre, que dela não querem fazer parte.
Assim, vimos apresentar-lhe os nossos cumprimentos e um forte incentivo para que continue a transmitir para dentro e fora da Igreja estas preocupações que também são as nossas, e que, embora reflictam apenas a nossa posição individual, de antigos militantes da JUC e membros actuais do Metanoia e do Centro de Reflexão Cristã, sabemos que são partilhadas por muitos outros crentes, muitos deles empenhados em renovar a Igreja e em dar testemunho de Jesus no nosso mundo.
Com os nossos cumprimentos,
António José Boita Paulino e Ana Maria Nunes Gonçalves

As Águias e a Cardiologia [14]

Não sei o que se passa aqui. Vim para este hospital nas vésperas da derrota do Benfica com o Nacional da Madeira. E com essa derrota lá se perderam todas as esperanças de se alcançar o título (mas isso já é habitual), mas acima de tudo perdeu-se o campeonato da Segunda Circular para os lagartos.

O que é certo é que a partir daí este serviço de Cardiologia está a rebentar pelas costuras. Todos os dias chegam mais pessoas com avarias no coração e já não há camas para todos. Os que sobram têm de ficar em macas.
Eu não sou de intrigas, mas parece-me que é capaz de haver por aqui qualquer ligação.
Assim vou ficar atento à porta, porque um dia destes ainda entra para cá o Rui Costa ou Quique Flores. E até desconfio que o serviço de Cardiologia do Hospital de S. João, no Porto, deve estar às moscas.

Declaração de interesses: sou benfiquista desde os meus 6 anos. Antes disso era adepto do Belenenses, como o meu pai, mas as campanhas europeias do Benfica em 1961/62/63 e com cumplicidade do meu padrinho virei a casaca.
…………………………………..

As coisas que se escrevem por aí:
Um clube quase perfeito
O Benfica é um clube quase perfeito. Tudo corre às mil maravilhas até que, após o arrepiante voo da águia Vitória ao som do hino do Luís Piçarra, o árbitro apita para iniciar o jogo.
Se não fossem esses malditos 90 minutos, o Benfica seria um clube perfeito.
(...)
Jorge Fiel, DN 7.Maio.2009


07/05/2009

Entretenimento [13]

O entretenimento aqui também tem as suas rotinas. Quando por volta das 7 h sou acordado para começar as doses de antibiótico, aproveito para me por a par das notícias, através da rádio. Alterno entre a TSF, Antena 1 e Rádio Clube.
Tal como dizia um bispo americano que todas as manhãs consultava a CNN, para saber por quem devia rezar, eu fico a saber as desgraças que se passaram neste nosso mundo. Também fico preocupado com os inúmeros problemas no IC19 e na VCI.
É certo que agora com a aproximação das eleições europeias, o que se ouve mais é a publicidade à Maizena, ao Photoshop e ao Bloco Central, e o ping-pong verbal, diário, entre alguns candidatos a protagonistas. Sabe-se pouco daquilo que se propõem fazer, mas isso agora não interessa nada.
Após as lavagens e a inspecção médica, chega o jornal e então dedico-me a saber mais em pormenor o que se passa por aí.
Passada a leitura, ligo o PC portátil e começa o meu horário de expediente com a EDP, aproveitando também para ver dos jornais na net.
Antes do almoço liga-se a TV para então acompanharmos, com imagens as desgraças mundiais. É interessante verificar que cada vez mais o que interessa é ter algumas imagens chocantes, e se cair um autocarro na China, mesmo sem mortos, mas com imagens espectaculares, isso passará à frente de qualquer boa notícia das muitas iniciativas que pessoas e organizações vão tendo para combater esta crise.
É a informação espectáculo.

Depois do almoço retomo o expediente com a EDP.
Das 15 h às 20 h vou tendo visitas. Já muita gente passou por cá ou telefonou, o que muito agradeço. Isso permite-me reconhecer a outra face da vida que é a da amizade com muitas das pessoas com quem me fui cruzando na vida e que sendo meus amigos, fazem o favor de cá vir ou telefonar. É certo que também têm de ouvir a história da minha doença, mas também serve para trocarmos experiências, que isto nesta idade, a nossa doença maior - a PDI - é o centro de todas as nossas atenções.
Todos os dias tenho a visita da Anita, para tratarmos dos nossos expedientes caseiros e para alimentar da esperança de que tudo vai correr bem. Os filhos, Tiago e Margarida, vêm também trazer-me as suas novidades e assim mantemos a família unida. O único problema é que eles amanhã vão comer coelho com ervilhas na casa da avó e eu terei por aqui um peixinho de dieta.

Depois do jantar, alguma atenção de novo para a TV e é o tempo para a leitura, para ver um DVD no portátil e escrever estas parvoíces para o blog. Nos intervalos entre as actividades, aproveito para caminhar no corredor central que tem 50 metros, para não perder o treino para as próximas caminhadas do Sempre a Descer.

E já nem sobra tempo para mais nada.

06/05/2009

Exijo um pedido de desculpas [12]

Exijo um pedido de desculpas àquele meu dente que por se ter estragado irremediavelmente teve de ser arrancado.
Exijo um pedido de desculpas a estas malditas bactérias que aproveitaram a porta aberta pelo dente e entraram por aqui dentro, e mesmo assim, em vez de se irem alojar, por exemplo nas unhas dos pés, foram logo escolher o motor principal, o coração.
Pronto, se eles pedirem desculpa, eu perdoo-lhes, …, mas também não sei o que fazer a seguir. A não ser continuar este tratamento, e esperar que tudo se recomponha e depois com um coração recauchutado e com um prazo de validade alargado, continuar a minha vidinha.

Qualquer semelhança entre este meu pedido de desculpas e as exigências que para aí andam do Vital Moreira, do Berlusconi, do Paulo Rangel, é apenas uma coincidência. Sim, porque eu não sou menos importante que eles.

05/05/2009

Os hábitos e vícios [11]

Ao longo da vida vamos ganhando alguns hábitos e até vícios que nos acompanham no dia a dia.
Eu quando saio de casa, passo por um café à entrada do Metro em Odivelas, ou à saída em Lisboa, e bebo um café. É aquela ideia peregrina de que este estimulante é que nos aquece os motores para um dia de trabalho.
Às vezes é a pausa a meio da manhã, para dois dedos de conversa com os colegas, acompanhado às vezes com uma saída para ir a um café.
Depois do almoço com amigos e colegas de trabalho, é natural não prescindirmos de vinho, e rematamos a refeição com uma rodada de cafés.
E se eu fumasse, seria também obrigado a uma série de paragens ao longo do dia para manter os níveis da nicotina.
E depois ainda temos a lata de dizermo-nos uns aos outros que são estes ou outros hábitos que dão sentido à nossa vida, sem os quais não podemos viver (“eu não consigo funcionar como deve ser sem um cafezinho matinal”).
Pois aqui no Hospital nada disto existe para os doentes e portanto não faz falta.
Vivemos com outras rotinas de que já dei notícia, e é assim que a nossa vida vai ganhando outro sentido.

04/05/2009

A despropósito dum blogue [a]

Um amigo fez esta apreciação:

Meu caro senhor.
Por razões que eu nem sei se sei, fui parar ao seu blogue.
Fiquei impressionado com algumas coisas que lá vêm e desculpe vir comentá-las.
1) De facto parece-me muito perigoso tirar dentes ao coração e é natural que dê infecção. É quase tão bom como pôr um pace maker na boca para se mastigar com mais ritmo.

2) O senhor Paulino teve muita sorte em o médico ter-lhe dado uma infecção cardíaca. Está bem instalado, num serviço todo limpinho, é bem alimenta… O meu vizinho, coitado, está num serviço mal cheiroso quase que não lhe dão de comer só porque o médico dele enfiou-lhe uma infecção gastro-intestinal e lá esta ele com a malta dos vómitos e diarreias.

3) O senhor teve foi azar na época em que foi internado. Se tivesse sido pelo Natal talvez até tivesse palhaços ao vivo e não só na televisão como descreveu. Não tenha medo de estar a ser muito caro pois eles é que gastam imenso dinheiro em viagens e jantares. Acho muito bem que se trate mas já agora com genéricos para não nos sair tão dispendioso.

4) Se o senhor Paulino quiser eu tenho um roupão neutro que lhe posso emprestar, mas também posso ceder um da “confraria da sesta” para não o incomodarem sempre que quiser dormir.

5) O meu amigo, uma vez que já é uma peça da exposição de medicina tem que estar bem alimentado e apresentável e para isso pode pedir um suplemento alimentar e tem direito ser lavado todos os dias. E penteie-se. Um coração penteado tem um sopro muito mais bonito.

6) Cá em Portugal é assim, cabe sempre mais um! A minha irmã vai no Verão para o Algarve com mais 15 pessoas para um apartamento de 5. Dormem em sacos cama e por turnos. Os mais velhos da meia-noite às 7, hora a que chegam os filhos, que ficam a dormir até à hora da praia lá para as três da tarde.

7) Eu netos não tenho para lhe emprestar. Mas posso pedir aos miúdos do bairro, que são netos de alguém que lhe vão dar de comer, e depois o senhor paga-lhes uma sandes e dá-lhes uma notinha de euros. É malta porreira quando não levam as fisgas. Já percebi que está com um computador. Se quiser ganhar algum eu dou-lhe trabalho. Eu fiquei com um negócio do meu tio. Ele estava na porta do BI a preencher os impressos, e ganhava umas cinco coroas por cada um que ajudava.

Eu agora arranjo clientes para os impostos, para matrículas nas escolas, para as multas dos chuis, tudo pela interneta e depois dou aos meus sobrinhos e amigos (a malta do Magalhães) que tratam disso porque eu é que não percebo nada disso. E depois dou-lhes uma comichão pelo trabalho.
Se o senhor Paulino quiser também pode ganhar uns trocos…. Eu um dia passo por aí para o conhecer e depois falamos.

Espero que vá pramelhor, até um dia destes e cumprimentos à sua senhora que lhe dá o charope.

José Beirão

03/05/2009

As rotinas [10]

A vida neste hospital está recheada de rotinas, que quase não me deixam tempo livre.
Logo às 7 h recebo duas doses de antibiótico injectável. Depois vou tratar das minhas lavagens, fazer a barba, tomar duche e vestir roupinha lavada. Um pijama, que é a nossa farda oficial de doentes.
Segue-se o pequeno-almoço, pão com manteiga sem sal, às vezes doce ou queijo, leite com café descafeínado, ou chá, e dois comprimidos para rebater.
A meio da manhã, fruta ou iogurte. Às 13 h almoço, que invariavelmente tem sopa (sem sal), e um prato de carne que alterna com o peixe ao jantar. Quase sempre fruta, às vezes gelatina ou um bolo com pouco açúcar. Quase sempre como acompanhamento, mais um comprimido para tratar de qualquer coisa.

Às 17 h o lanche, que é semelhante ao pequeno-almoço. Pelas 19 h chega o jantar.
No meio destas sessões levo mais umas doses de antibiótico (penicilina e gentamicina), porque a bicharada não é fácil de exterminar.
No meio disto tudo vamos vendo alguma TV, com excepção do período matinal em que a movimentação dos médicos, enfermeiras e auxiliares, não aconselham muito barulho na sala.

E às 23:30 h, sim porque aqui as actividades acabam tarde, além de uma ceia (chá ou leite morno e bolachas) lá levo mais duas doses de antibiótico.
Como se pode ver, não há muita folga para eu poder tratar do expediente.

As minhas vistas [9]

Nesta minha presença no Hospital, estou confinado a uma sala com 3 camas, a um corredor com 50 metros e à casa de banho colectiva. As vistas que tenho do quarto são para o grande descampado onde estava o antigo estádio José Alvalade, e que actualmente o Sporting espera poder utilizar para a construção de habitação. Com a crise actual, está visto que vai ficar ainda muito mais tempo como descampado. O novo estádio fica escondido atrás da grande árvore que tenho em frente.


A partir da casa de banho e se abrir as janelas, tenho a vista do jardim central deste hospital.